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quinta-feira, 21 de setembro de 2017

O FIM DA GASOLINA E DO GASÓLEO ESTÁ PARA BREVE E COMEÇA NA CHINA



A China é provavelmente, é economia mais capitalista e mais temível em todo o mundo. Com uma força brutal, é capaz de deter grande parte da dívida pública americana, comprar o que lhe apetece no mercado europeu e influenciar de forma decisiva o mercado automóvel mundial.

Apesar das principais marcas automóveis já se terem convencido da inevitabilidade dos carros elétricos e do fim do diesel, os governos europeus ainda apontam para lá de 2030 como data provável da morte dos carros a gasolina e gasóleo, até porque ainda estudam como vão buscar ao setor automóvel a receita fiscal proveniente das altas taxas aplicadas aos combustíveis. Na China deu-se um passo de gigante, que trocará a volta aos líderes europeus, aos donos das principais marcas de automóveis e a toda a economia.

Há sete anos, a empresa chinesa Geely comprou a sueca Volvo, quando esta só dava prejuízo. Este ano comprou a fabricante dos famosos e glamorosos táxis londrinos e esta semana adquiriu 50% da malaia Proton e 51% da Lotus. Ao mesmo tempo anuncia que dentro de dois anos deixa de produzir carros a gasóleo (talvez por isso se empenhe tanto em vender todas as carrinhas Volvo que tem em stock) e quer colocar meio milhão de carros elétricos no mercado chinês em dois anos. Em consonância com a estratégia comercial desta empresa, o governo chinês admitiu, esta semana, proibir a venda e a produção de carros a gasolina e gasóleo, em 2020, o que na prática significa “amanhã”. Ao admitirem tal medida é porque sabem que a «sua» Geely está preparada para entrar em força no mercado dos carros elétricos. Obviamente, que as marcas europeias não podem perder o mercado chinês, que é só o maior mercado automóvel do mundo, e por isso, ou respondem à letra e estão preparadas para produzir em massa carros elétricos em 2020 ou sofrem uma derrota de proporções gigantescas.

Se a China estiver elétrica em 2025, a Europa não pode andar a gasóleo e não haverá EUA que nos acuda, até porque eles já produzem o seu Tesla. A força e o poder do petróleo têm os dias contados e parece já não ter salvação. Em 2030, os carros movidos a gasolina ou gasóleo serão uma minoria e apenas visíveis em países subdesenvolvidos.

Já pensaram que os atentados terroristas na Europa podem ser mais do que ideologia e religião? E se estiveres perante o estrebuchar horripilante de economias que assentaram todo o seu poder no petróleo? A China pôs a rolar a bola de neve. Desta vez eles não tiveram paciência de chinês mas a pressa gulosa dos capitalistas.

GAVB

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

O FIM DO IMPÉRIO MUGHAL


Há precisamente 160 anos, a 20 de Setembro de 1857, o xá Bahadur Shah Zafar (1775-1862) rendia-se às autoridades inglesas, na Índia, e punha assim fim ao Império Mughal. 

Durante esse ano de 1857 rebeldes indianos puseram em questão o poder inglês no território indiano e o rei de Deli tornara-se numa figura icónica para os rebeldes.
A sua rendição pôs termo à denominada Revolta Indiana e, mais do que isso, ao Império Mughal. O velho xá «reinava» sobre um pequeno território pobre e pequeno, constituído apenas pelo Forte Vermelho de Deli, mas era um homem muito respeitado e extramente culto. Poeta e calígrafo, o último rei da dinastia Mughal formou na corte um centro de saber e literatura urdu.

Infelizmente os acontecimentos políticos e a falta de grandeza e nobreza de quem representava o poder inglês na Índia não permitiram um fim digno ao rei de Deli. O capitão William Hodson tornou ignóbil o ato da rendição de Bahadur Shah Zafar, depois de anteriormente já ter mandado fuzilar os filhos do xá.
O último rei da dinastia Mughal foi julgado, condenado e exilado na Birmânia, acabando por morrer numa prisão de Rangum. No entanto, tornou-se numa fonte de inspiração para os futuros nacionalistas indianos que viam em Bahadur Shah ZZafar um exemplo da revolta pacífica e digna contra a arrogância e prepotência inglesa na Índia.
A postura do rei de Deli é um exemplo também para os líderes políticos atuais, que apenas conhecem o exemplo da ameaça, do exercício despudorado da força, da chantagem económica e militar como formas de se imporem. Nada mais errado.

GAVB

terça-feira, 19 de setembro de 2017

TODA A GENTE QUER RESIDIR EM PORTUGAL. POR QUE RAZÃO SERÁ?




Quatro mil pedidos de visto em apenas uma semana! Se não é recorde mundial, deve andar lá perto! Não é um fenómeno do Entroncamento, mas do Portugal que escancara as portas a quem quer residir no país, sem critério nem cuidado. Agora já nem é preciso pagar (vistos gold), nem ser um reformado rico e conhecido (ao estilo Madonna ou Cantona), porque o governo do Partido Socialista, em consonância com os partidos do arco da geringonça, aprovou uma lei em que exige ao estrangeiro, para a obtenção de visto de residência em Portugal, a barbaridade de uma “promessa de contrato de trabalho” e a inscrição na Segurança Social. Desde já declaro que estou disponível para prometer trabalho a quem quiser, desde que seja estrangeiro, e a preencher o boletim da segurança social a todo o ucraniano, russo, nepalês, birmanês, indiano, brasileiro, cabo-verdiano… que pretenda viver em Portugal. A comissão é barata!

A legislação que entrou em vigor, ao arrepio de mais elementar bom senso e da discordância dos SEF (Serviços de Estrangeiros e Fronteiras), é uma tremenda irresponsabilidade, especialmente numa altura em que a Europa regista a média de um atentado terrorista de 10 em 10 semanas.
Ainda hoje, uma amiga estrangeira manifestava-me a sua estranheza por este franquear de portas do governo português e brincava, dizendo que qualquer dia os marcianos também pediam visto de residência em Portugal.
Neste momento o que mais me preocupa é a segurança, mas isto trará também problemas sociais e económicos. São pessoas provenientes de culturas muito diversas que chegam, sem qualquer enquadramento e que só por muita sorte não arranjarão problemas. Por outro lado, o governo mantém a intenção de não cobrar IRS aos reformados estrangeiros, pensando que os investimentos que farão em Portugal acabarão por cobrir a arriscada aposta.
Dando de barato que o tiro não sairá pela culatra, subsiste a gritante questão de injustiça social e fiscal. Então um reformado português, com uma reforma de 4000 euros tem de deixar na fonte mais de mil euros e um reformado sueco pode não pagar nada?
O que convém as pensionistas portuguesas não é o aumento das reformas, mas apenas tornarem-se estrangeiros.

GAVB

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

POR QUE NÃO SE FALA DA MUNICIPALIZAÇÃO DA EDUCAÇÃO NO DEBATE AUTÁRQUICO?



A Municipalização da Educação, em Portugal, está em marcha. Silenciosamente vai concretizar-se, em quase todas as vertentes, exceto na dos professores, até ver… Há projetos-piloto em curso, espalhado pelo país, e creio que a flexibilização curricular é também uma peça do puzzle.
Daqui a um ou dois anos, é possível que as autarquias assumam um papel importante nas escolas portuguesas, mas o tema da Educação está fora da agenda do debate político autárquico. Porquê? Porque queima e poucos se querem comprometer com aquilo que farão. Dir-me-ão que a tutela ainda não definiu os termos da passagem de testemunho, é verdade, mas é claro que a transferência para as autarquias da parte patrimonial, de conservação e dos auxiliares de ação educativa é uma ideia assumida (ainda que envergonhadamente) pelo Partido Socialista.

Nas últimas semanas, os candidatos às autarquias desdobram-se em ideias, projetos, promessas, mas ainda não vi ou ouvi nenhum explicar que projetos tem para as escolas degradas do seu concelho, como pretende fazer a gestão dos recursos humanos escolares. Os diretores escolares sempre se queixaram ao Ministério da Educação da falta de funcionários para as escolas e agora que eles estão prestes a passar para as Câmaras Municipais, ninguém pergunta aos candidatos o que farão no futuro? Aumentarão o número de auxiliares, como reclamam as escolas e as populações ou manterão tudo igual? Há Câmaras que se gabam (e com razão) dos vários projetos co-financiados pela União Europeia que conseguiram pôr em marcha, mas vejo poucos, de grande envergadura, sobre Educação. Bolsas de estudo, ATL´s gratuitos, salas de estudo são boas ideias, mas ações em pequena escala.
Nas próximas eleições autárquicas há muitos professores envolvidos e também por isso esperava que o tema da Educação estivesse muito mais no centro do debate, mas não está!

Em Portugal, gosta-se muito de dar o exemplo do estrangeiro… quando isso convém, por isso era bom atentar em alguns projetos de fôlego que diversas edilidades europeias promovem. 
Algumas sugestões: autarquias com forte envolvente florestal ou fluvial podiam patrocinar projetos de aproveitamento energético das florestas ou das águas; quem tem tradição histórica nas artes podia propor, nos Conselhos Gerais das Escolas, a criação de uma turma por ano, paga através da autarquia, dedicada à música ou à pintura ou ao teatro, sempre numa perspectiva de continuidade e de qualidade. O preço destas iniciativas é mais ou menos conhecido, é suportável e diria que não fica muito longe daquilo que se gasta em foguetório inútil ou propaganda eleitoral em outdoors.
GAVB 

domingo, 17 de setembro de 2017

OS TERRAMOTOS TAMBÉM SE APRENDEM

Há dez dias, o México voltou a ser sacudido por um sismo violentíssimo – 8,2 na escala de Richter. O normal seria estarmos ainda hoje a contabilizar as vítimas mortais, provavelmente na casa dos milhares ou dezenas de milhares, dada a densidade populacional do México e a violência do terramoto.
No entanto, as vítimas não chegaram à centena, ou seja, mil vezes menos do que aconteceu há três décadas (1985), quando um abalo semelhante provocou a morte de mais de cem mil pessoas.


Isto prova bem que os mexicanos aprenderam como agir em caso de terramoto. Normas de construção antissísmicas rígidas e cumpridas; uma população educada e instruída, que sabe o que fazer em caso de catástrofe e avisos sonoros eficazes, por parte das autoridades, alertando a população para a forte possibilidade de sismo, ditaram milhares de vidas salvas.
Quando todos fazem o seu papel, o azar tem menos hipóteses e nem é preciso ser japonês ou do norte da Europa, para saber como se faz. Os latinos também sabem ser assertivos!

GAVB

sábado, 16 de setembro de 2017

O MINISTRO DA EDUCAÇÃO ESTÁ A PRECISAR DE UMA PERMUTA


Inábil, sonso, injusto… não sei que adjetivo escolher para caracterizar o Ministro da Educação. Nos últimos meses, só temos somado desilusões com as ações e as atitudes de Tiago Brandão Rodrigues. A maneira como geriu a colocação dos professores efetivos, em especial aqueles que tentaram, em vão, a mobilidade interna, revela bem quão impreparado é o jovem ministro de António Costa.

O ministro e o primeiro-ministro perceberam claramente que meteram o pé na poça na questão da colocação de professores do quadro de zona de pedagógica, ao não fazerem sair todos os horários a que estes professores podiam concorrer, ao mesmo tempo, criando gritantes injustiças entre professores. Tal como aconteceu na questão dos alunos que acederam ao exame de Português antes dos outros, o ministro não sabia o que fazer para sanar o erro e por isso achou que se deixasse passar o tempo o problema resolvia-se. E resolveu-se... com prejuízo para milhares de professores! Que terá prometido António Costa no fim-de semana passado aos professores em Matosinhos? Que ia dar uma palavrinha a Tiago Brandão Rodrigues? Ele obviamente não sabia descalçar a bota e saiu-se com duas tiradas absurdas e quase a raiaram o insulto. 

Sugerir aos professores, que se sentem injustiçados, que sempre podem fazer uma permuta é “gozar” com eles. Então os professores que ficaram longe vão pedir permuta aos colegas que ficaram com o seu lugar e agora estão satisfeitinhos da vida? Imagine Tiago Brandão Rodrigues que amanhã, por qualquer lapso informático ou decisão desvairada do primeiro-ministro, é colocado como diretor regional de educação em Beja. Como solução para recuperar o seu posto, o líder do governo dá-lhe como hipótese uma permuta com qualquer ministro, desde que este queira, ou então sempre pode esperar um ano e fazer novas provas para Secretário de Estado ou Ministro do Ambiente.
Tiago Brandão Rodrigues já deu provas suficientes que não tem qualidades suficientes para o cargo. E nem se pode queixar de má imprensa ou ataque cerrado dos partidos da oposição.

GAVB 

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

“EU CONSIGO LIDAR COM AS EMOÇÕES; O QUE EU NÃO AGUENTO SÃO OS FACTOS...”

                                                  
   João Tordo, O Deslumbre de Cecília Fluss

        

 Em O Deslumbre de Cecília Fluss assiste-se a um jogo pautado por vários níveis ainda que de forma muito subtil, com o leitor a ser, por sua vez, lembrado da sua condição, através de um narrador que também o interpela, que lhe lembra que é ele o destinatário de uma narrativa construída para o indagar acerca da mortalidade e da condição humana, conjugando-se para isso o racional e a fantasia, sem que a fronteira entre um e outra esteja latente. 
         Através das personagens do enredo explora-se a temática da solidão como ponto de chegada, a evolução e decadência da condição humana, o amor como ponte entre o prazer e a dor emocional. Assim, João Tordo pega na morte como catarse para regressar ao início, a Matias, um miúdo que é a transmutação dos narradores dos seus livros. Ele acaba por se tornar um homem, sempre muito ansioso e com vontade de paz, algo que não consegue alcançar, como quase toda a Humanidade aliás.
        
 O verdadeiro suspense em O Deslumbre de Cecília Fluss não está na resolução de um enigma, mas no labirinto de emoções, crenças, sonhos e pesadelos de personagens bizarras que servem para discorrer sobre a morte, o medo, a doença, a angústia, a religião, a mitologia e o sofrimento enquanto potência de vida numa teia que obedece a um único princípio: seguir um homem — com letra minúscula ou maiúscula — em dor. 
         À medida que ia lendo O deslumbre de Cecilia Fluss, fiquei com a sensação que o autor podia continuar a escrever esta estória para sempre porque, na verdade, nada acaba. Ela, de facto, situa-se em lugar nenhum, mas em todos os sítios simultaneamente. A busca não tem fim e a luta, a vida, ou o que se assemelha a ela, continuam. Há lições importantes para todas as personagens, mas sobretudo para o leitor. De uma forma muito geral fala-se de adolescência, amizade, amor, perda, medo, solidão e demência. Mas isso são apenas os meios de transporte utilizados para falar da vida e da condição humana - de que é que somos feitos? O que é que nos magoa (e porquê)? O que é que procuramos? Esta obra é portanto um convite à auto-análise, à reflexão sobre o sentido das coisas e ao apaziguamento do sofrimento que nunca parece terminar. 
         Com este romance partilhei a dor e a tentativa de fuga da realidade com Matias, a solidão e o desapego com Elias, a insatisfação e a desilusão com a Cecília e um pouco de loucura com todos eles. 

Rafaela Leite

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

ENFERMEIROS: EMANCIPAÇÃO E REVOLTA


Nunca como esta semana Portugal assistiu a uma greve tão acirrada dos enfermeiros portugueses. Os enfermeiros sentem-se (e com razão) desconsiderados, injustiçados, por vezes humilhados, maltratados, muito mal pagos.

Os enfermeiros têm razão? Sim, em quase tudo o que reivindicam. Há anos que são enganados, com falinhas mansas, pelos sucessivos governos, que lhes prometem um estatuto e uma carreira remuneratória condizente com as suas qualificações académicas e profissionais e nunca cumpriram. Por isso, não os devemos chantagear com as operações que ficam por fazer ou atirar-lhes à cara o oportunismo político do momento da greve. 


Os políticos apenas entendem a linguagem eleitoral e por isso é justo que colham as tempestades que semearam; quanto aos médicos não têm moral para falar dos aborrecimentos causados aos doentes pela greve dos enfermeiros, quando eles já causaram tanto ou mais dano à saúde dos portugueses com as suas greves gerais e chantagens. Fica-lhes muito mal colocarem-se subtil e oportunisticamente ao lado da tutela nesta greve dos enfermeiros, ao lamentarem as operações que ficam por fazer, porque não atendem às justas razões dos colegas de trabalho e mostram o que verdadeiramente pensam do trabalho e importância dos enfermeiros. Abriram-se feridas desnecessárias e algumas vão demorar a cicatrizar.

O pior do ministro da saúde foi o modo deselegante como lidou com os enfermeiros. Podia dizer-lhes que não podia aumentá-los sem o visto do ministro das finanças, que não tinha dinheiro para tal, que só seriam aumentados quando a função pública o fosse na globalidade, mas preferiu humilhá-los, ao começar por não os receber e depois, quando a greve avançou e tomou as proporções que hoje se conhecem, ao considerar a greve ilegal, por não ter respeitado os prazos e as formalidades exigidas. Um ministro trata de política não de formalismo legais! O que queremos saber do ministro é como ele resolve o problema social e profissional dos enfermeiros. E nisso ele mostrou-se inábil, arrogante e desastrado.
A melhor resposta que o ministro e os médicos tiveram às suas atitudes perante esta greve dos enfermeiros foi o silêncio compreensivo da generalidade dos utentes do serviço nacional de saúde. Eles sabem melhor do que ninguém que os enfermeiros portugueses sempre deram o melhor de si ao país, que muitos tiveram de emigrar contra vontade, apesar de haver trabalho em Portugal, que  estes profissionais de saúde ganham mal para o trabalho realizado.
Agora que os enfermeiros se afirmaram e emanciparam, o passo seguinte é discutir a distribuição do dinheiro que o país aloca à saúde. Não se paga de mais aos médicos e de menos aos enfermeiros?

GAVB

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

ELEIÇÕES: A ARTE DE SE ELEGER À CUSTA DOS OUTROS


As eleições autárquicas permitem como nenhuma outra “votar em quem se conhece”. Cada um usa o critério que para si faz mais sentido, desde da competência ao programa eleitoral, passando pela lista de promessa ou até os valores pessoais que definem os candidatos. Por isso uns fazem promessas inovadoras, outros lançam mão do seu currículo enquanto há os que preferem destacar a sua humildade, honestidade, afetividade. Embora sejam características fundamentais que os candidatos devam ter, não aprecio muito quem delas se serve como argumento, pois ao trazê-las para o debate público sugere que os adversários não as têm, o que, na maioria das vezes, não corresponde à verdade e é sempre deselegante.

Apesar de raramente ser dito e assumido, há uma espécie de candidatos que procura eleger-se com base noutro pressuposto: o trabalho dos outros. 
Uns cavalgam a boa onda do governo e sugerem que apenas por serem do mesmo partido farão igual; outros empoleiram-se nos êxitos do Presidente da Câmara para conquistar a Junta de Freguesia e há ainda aqueles que apostam as fichas todas em cair nas boas graças das máquinas partidárias locais para se elegerem. Em todos os casos, parece-me um abuso de confiança! O trabalho não foi deles, a obra não é sua, muito menos o mérito.

Prefiro que me falem do que já fizeram no serviço à causa pública ou na sua vida profissional ou, no caso de serem principiantes políticos, que me seduzam com as suas ideias, ainda que venham em forma de promessas. Não precisam de ser mirabolantes (nunca ditas ou feitas), apenas exequíveis, sustentadas e que façam sentido no contexto local.    
Um candidato que se preze não se pendura, afirma-se. Às vezes, não precisa de fazer mais, apenas melhor, embora na maioria das vezes seja mesmo preciso mais e melhor. Em qualquer dos casos, que apenas invoque o seu trabalho, as suas ideias, os seus projetos.

GAVB

terça-feira, 12 de setembro de 2017

VÄXJÖ - UMA CIDADE CHIC E ECOLÓGICA


As próximas eleições autárquicas e os últimos incêndios, em Portugal, fizeram-me pensar em Växjö, uma pequena cidade no sul da Suécia, que há mais de trinta anos segue, com sucesso, uma opção de vida ecológica.
A Câmara Municipal de Växjö definiu como grande prioridade política, económica e social a diminuição de emissões de dióxido de carbono. E passou das palavras aos atos.
Hoje, mais de metade da energia consumida pelos habitantes de Vaxjö é energia renovável.

Aproveitando o facto de 60% do território do município ser floresta, uma fábrica local transformou os dejetos florestais em biomassa, que deu origem a biocombustível usado para o aquecimento das casas de 90% das pessoas da cidade sueca, pois os preços praticados são muito atrativos. Se Växjö tivesse de usar petróleo para se aquecer durante o duro inverno teria lançado para a atmosfera mais de duzentas mil toneladas de CO2 por ano, assim lançou apenas sete mil toneladas – trinta vezes menos!
Paralelamente a Câmara Municipal incentivou a construção de casas de madeira, as quais usam matéria-prima produzida na região e têm um fraco consumo de energia, pois são muito bem isoladas e retêm o calor nelas produzido pelas atividades domésticas, como por exemplo cozinhar, de tal modo que raramente precisam de aquecimento convencional, apesar de no Inverno os termómetros chegarem os 20º negativos.

A edilidade intervém também ao nível da consciência social e nesse sentido instalou contadores de água personalizados em todos os apartamentos, de maneira a que cada habitante possa perceber de imediato o desperdício de recursos que cometeu.
Nas escolas com mais população estudantil instalaram-se painéis solares de modo a torná-las autossuficientes a nível energético ao mesmo tempo que as energias renováveis fazem parte do currículo obrigatório dos alunos (Ótima ideia para a flexibilização curricular portuguesa, onde 25% do currículo é decidido pela Escola…). Quando chegam à vida ativa, ao momento em que tomam decisões, os jovens de Växjö já estudaram, experimentaram e beneficiaram das vantagens económicas e ambientais das energias renováveis.
O próximo projeto de Växjö é produzir biocarburante em massa, de maneira a que o transporte na cidade se faça apenas com o recurso a biocombustível. Atualmente todos os carros da Câmara já o fazem!
Em Växjö a floresta não é um problema mas uma oportunidade para viver melhor e de uma maneira mais sustentada e saudável, além de criar emprego.

GAVB

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

BIBIANA: DE MULHER-POLÍCIA A MULHER-ÁRBITRO



Cada vez gosto mais de alemães. A maneira como encaram a vida, enfrentando problemas, aceitando desafios e responsabilidades, em vez de esperar que os outros os resolvam, faz-me sempre admirá-los. Não acho que seja genético, mas apenas cultural e mental.
Ontem, pela primeira vez na história do futebol europeu, uma mulher arbitrou um jogo da 1.ª divisão de um importante campeonato europeu. Aconteceu em Berlim, no jogo da terceira jornada entre o o Hertha de Berlim e o Werder Bremen, apitado por Bibiana Steinhaus.
Apitar um jogo de futebol entre homens não é propriamente uma novidade para a senhora Steinhaus, pois já o faz há dez anos, mas nunca com o mediatismo de um jogo da Bundesliga, um dos cinco campeonatos mais importantes na Europa.

Ao que parece Bibiana sempre se deu muito bem em trabalhos historicamente destinados a homens. Além de árbitra de futebol, a alemã também é agente da polícia e por isso está habituadíssima a lidar com a linguagem agressiva dos homens. Apesar disso, ontem à tarde, entre os quase cinquenta mil espectadores que estavam no Estádio Olímpico de Berlim, havia aquele burburinho e curiosidade especiais – “Como é que ela se vai sair?!”. Saiu-se muito bem, tal como já havia acontecido noutras ocasiões com jogos menos mediáticos, porque a Federação Alemã não a escolheu apenas por ser mulher, mas antes de mais pela sua competência técnica, já que um campeonato como o alemão é uma competição tão bem organizada e que envolve tantos milhões de euros que não se pode dar ao luxo de não ser arbitrado pelos melhores.
A secretária-geral da FIFA (também uma mulher… sinal dos tempos) escreveu no seu facebook que a presença de Bibiana em Berlim é “uma mensagem forte para o resto do mundo”, enquanto Bibiana foi bem mais modesta, sem deixar de transmitir também ela uma mensagem importante: “Nunca fiz isto com um objetivo de emancipação. Fiz simplesmente aquilo que amo. Mas se sou exemplo para muitas jovens raparigas, ou uma pioneira para fazer avançar a igualdade de direitos, obviamente, fico satisfeita.”

Há uns anos, Gary Lineker (avançado da seleção inglesa) dizia que o futebol “é um jogo de onze contra onze, em que no final ganha a Alemanha”. Não é sempre verdade, mas é muitas vezes, porque eles não são muito organizados, competentes e não têm medo de inovar, derrubar muros ideológicos e psicológicos, quando se torna evidente que devem ser derrubados.

GAVB

sábado, 9 de setembro de 2017

UM OCIDENTAL EM MECA

         
A 10 de Setembro de 1853, o explorador e orientalista britânico Richard Burton visitou Meca disfarçado. A expedição patrocinada pela Royal Geographical Society encerra um enorme perigo, pois segundo as convenções da cidade de Meca a presença de um não-muçulmano teria sido suficiente para provocar a morte deste, caso o disfarce fosse descoberto. 
         No entanto, Burton manteve-se sempre oculto e pôde ver o que os peregrinos da Hajj (peregrinação que os muçulmanos fazem a Meca) teriam conseguido observar: o santuário em forma de Cubo da Caaba (casa sagrada de Deus, situada no meio da mesquita sagrada na cidade de Meca), que se encontrava ao centro da Masjid al-Harem, o grande complexo da mesquita.


        Dois anos mais tarde, Richard Burton descreveu a sua experiência oriental em Meca: “Poucos muçulmanos contemplam pela primeira vez a Caaba sem medo e respeito. Há um chiste [gracejo, piada] popular sobre os principiantes, que em geral perguntam qual a direção das preces. Sendo esta a Kiblah, ou fachada, todos rezam à volta dela; uma circunstância que não pode registar-se em lado nenhum do Islão exceto em Harim.” 

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

MIGUEL ÂNGELO ENTREGA O «SEU» DAVID A FLORENÇA


No início do século XVI, um grupo de poderosos mecenas de Florença desafiou o genial Miguel Ângelo a construir uma escultura imponente da figura bíblica de David, para figurar na catedral de Florença, no entanto o seu destino acabou por ser a famosa Piazza della Signoria, em frente ao Palazzo Vecchio pois os artistas florentinos queriam fazer dela o símbolo da defesa das liberdades civis, consagradas na República de Florença, uma cidade-estado que lutavam contra o poder dos Medici e a hegemonia galopante de Roma.

Foram precisos quarenta homens, quatro dias e muitos andaimes, cordas e cilindros para levar a estátua de 5,17 metros até ao coração de Florença. Estávamos a 8 de Setembro de 1504 e Florença encontrava, numa das peças artísticas mais conhecidas de Miguel Ângelo, um motivo de orgulho.


Ao contrário de outras representações de David, Golias é completamente omitido. Miguel Ângelo preferiu destacar a pose confiante de David, própria de quem já tomou a decisão de combater. 
A obra do artista renascentista italiano é também um fabuloso estudo da anatomia humana, pois é possível observa a tensão dos músculos e tendões, a testa franzida, as veias que saltam da sua mão direita. 

A humanidade, a força, a serena decisão de David transpiram da escultura de Miguel Ângelo e levaram a Florença milhões de pessoas, ao longo deste cinco séculos, para a poder apreciar.
No final de 1873, a estátua foi removida da Piazza della Signoria e transportada para a Galleria dell’Accademia de Florença, onde pode ser admirada.

GAVB

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

CHAMAM PRENDA ÀQUILO QUE DEVIA SER NOSSO POR DIREITO


No arranque do ano letivo, o ministro Tiago Brandão Rodrigues, ao lado do primeiro-ministro António Costa, anunciou 1500 novos auxiliares de ação educativa (500 dos quais para o pré-escolar). Referiu-se também aos manuais escolares gratuitos que o ME distribuirá a mais alunos bem como às obras em curso, em algumas escolas.


Tudo isto foi apresentado quase como uma prenda do Executivo ao setor da Educação, procurando provar que o governo do Partido Socialista faz uma aposta forte na Educação. Nada mais falso. O que o governo fez foi apenas colmatar falhas urgentes, claramente identificáveis, e normais, em qualquer arranque de ano letivo. Os 1500 novos auxiliares de ação educativa mostram bem quão necessitadas estavam as escolas e não qualquer aposta do governo na Educação.
As obras agora em curso são apenas aquelas que ficaram paradas na altura da grave crise económica de 2011 ou as que não tinham, incompreensivelmente, entrado no programa de festas da Parque Escolar. Não é favor nenhum reabilitar uma escola, onde já chovia nas salas de aula ou sem qualquer intervenção desde o século passado.

O alargamento do número de alunos com livros escolares gratuitos é uma boa medida, embora não represente grande esforço financeiro, mas antes um melhor aproveitamento dos recursos existentes com a reutilização dos manuais escolares que o Estado foi comprando às editoras nos anos anteriores.
Em conclusão, aquilo que o Estado se prepara para efetivar, em termos de gastos com a Educação, não é mais do que lhe compete e do que é devido à população. Qualquer aproveitamento político é um abuso e deve ser denunciado.


P.S. Lamentável a atitude do ministro da Educação ao fazer sair a primeira lista de colocação de professores contratados poucas horas depois de receber os professores QZP que reivindicavam a suspensão de todo o processo de colocação de professores. Com a saída das listas, todas as esperanças destes professores caíram por terra. Atendeu-os para quê? Para lhes passar a mão pelas costas e dizer “tenham lá paciência, é a vida”? Ou será que teve a coragem de lhes dizer na cara que não tinham razão nenhuma, a decisão de não atender as suas reivindicações estava tomada e que aquela reunião era mera cortesia em honra das regras de boa educação?
GAVB


quarta-feira, 6 de setembro de 2017

WHERE IS THE MONEY?



Foi preciso o presidente Marcelo Rebelo de Sousa falar, para quem tinha o dinheiro dos donativos de Pedrógão sair da toca e prestar algumas contas. Enquanto as vítimas reclamaram e os Presidentes de Câmara se indignaram ninguém achou necessário esclarecer, mas Marcelo é o presidente e antes que o caso se tornasse mais mediático, Governo, Misericórdias, Cáritas… começaram a prestar esclarecimentos.
Das contas do governo, prestei atenção à enorme diferença entre intenções de doações e doações efetivas. Onde vai o descaramento de grande empresas e países, ao anunciar solidariedade que não efetivam, quase que diria apenas como um golpe publicitário. Mereciam bem que alguém os massacrasse... publicitariamente falando.

O que o governo não explicou é por que razão continua a reter o dinheiro, se ele foi reunido para atender a casos de emergência social. Também não explicou com que moral cobrou impostos de muitas das doações, nomeadamente nas chamadas de valor acrescentado, quando são conhecidas tantas e tantas isenções incompreensíveis. Só a título de exemplo, os bilhetes para os concertos na Festa do Avante não pagam IVA e os lucros lá gerados também não. O Partido precisa, mas a pessoas de Pedrógão já pagaram impostos das esmolas doadas e ainda não as receberam. Lindo, educativo e profundamente moral.
Por outro lado, as Misericórdias também anunciaram o que angariaram para Pedrógão: 1, 6 milhões de euros, já com impostos pagos, que a Igreja gosta de estar em dia com o Fisco, como toda a gente sabe. O que é escandaloso é que apenas fez chegar aos destinatários das doações menos de 1% do que ficou à sua guarda. Porquê? Mistério. Não explicou. Afinal sempre libertou 12 mil euros, mas os restantes um milhão e seiscentos mil euros continuam no banco a render.

A Cáritas também prestou contas. Um milhão e oitocentos mil euros angariados, dos quais cativou um milhão e trezentos mil euros para um projeto da Cáritas de Coimbra, relacionada com a destruição provocada pelos fogos. Para Pedrógão saíram apenas, até ao momento, 100 mil euros.

Não sei se foi isto que os portugueses, que enviaram o seu dinheiro para contas solidárias, imaginavam que aconteceria, mas estou certo que ninguém pensava que três meses depois da enorme tragédia de Pedrógão Grande ainda ninguém soubesse ao certo quem foram os culpados e que 90% do dinheiro doado, por solidariedade com as populações atingidas, continua nos bancos.

GAVB

terça-feira, 5 de setembro de 2017

O BIG BROTHER DAS EMPRESAS VAI CHEGAR AOS EMAILS PRIVADOS


O Tribunal Europeu Dos Direitos do Homem acaba de decidir que as empresas podem ler correspondência privada e conversas dos seus trabalhadores, em horário de expediente, desde que avisem o trabalhador previamente. Nem é preciso que ele concorde.

A decisão surge na sequência do processo de despedimento de um trabalhador romeno, cuja empresa foi condenada por violação do direito à privacidade do trabalhador, apenas por não o ter avisado que estava a monitorizar as suas mensagens eletrónicos com a família, numa aplicação tipo whatsApp e só nessa medida o despedimento foi ilegal, porque o Tribunal que vela pelos direitos dos cidadãos a nível europeu considera legítima e legal que uma empresa aceda a toda a correspondência trocada pelos seus funcionários, em horário de trabalho.

Parece mais ou menos pacífico que a empresa tenha direito ao seu trabalhador em todos os minutos que lhe paga e que este não desperdice tempo do seu horário de trabalho com assuntos particulares, mas parece-me errado, perigoso e perverso permitir que sejam as empresas a controlar e aceder ao conteúdo dessa comunicação privada.
É certo que só podem usar o conteúdo do que ficam a saber se a correspondência e/ou conversas se deram em horário de trabalho, mas uma coisa é não usar outra é não saber.

Se acede durante o horário de expediente, quem garante que não acede fora do horário de trabalho? E na posse de informação sigilosa e pessoal não podem chantagear o seu trabalhador? Podem e fá-lo-ão muitas delas. 
Como nos sentiríamos se os nossos patrões (com rosto ou sem ele) soubessem o conteúdo das conversas que trocamos, fora da hora de expediente, com as nossas companheiras, filhos ou pais? Se soubessem os nossos hábitos de lazer, as nossas combinações ou os nossos desabafos? A partir de hoje nem precisam de nos pedir autorização, só têm de nos avisar que o farão.


Argumentarão os defensores desta posição do TEDH que cada trabalhador deve criar um email pessoal e outro laboral. É certo, mas se as empresas os quiserem espiar e controlar além do aceitável, basta-lhes tentar estabelecer comunicação institucional através do email pessoal ou não incentivar à criação de um email laboral. Rapidamente muitos trabalhadores serão apanhados na ratoeira. 

As empresas apenas precisam saber se o seu trabalhador prevaricou ou não e não o conteúdo dessa prevaricação. E há meios tecnológicos de o saber ou impedir, não é necessário montar um grande big brother que até os pensamentos nos lê.

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

O GOVERNO QUER UM RECENSEAMENTO ÉTNICO-RACIAL PARA QUÊ?

Ao que parece o governo português quer fazer uma espécie de recenseamento étnico-racial da população a residir no nosso país. 
Com todo o cuidado ao nível do discurso e de forma encapotada, através do próximo Censos 2021, a ideia do governo é, no mínimo, infeliz.  
Por mim, fico satisfeito que haja mais estrangeiros a querer viver em Portugal, sejam eles o Eric Cantona, a Monica Bellucci, a Madonna ou um anónimo qualquer; desde que “venha por bem” é bem-vindo.

Não acho relevante saber quantos ciganos habitam o nosso país, nem negros, nem sequer muçulmanos, pois acho que essa intenção, no contexto atual, tem um alcance xenófobo. A mim, basta-me saber que existem mais de vinte mil chineses em Portugal, que há mais de trinta mil romenos e o número dos cabo-verdianos ultrapassa os trinta e seis mil, entre outras particulares dos quase meio milhão de estrangeiros a residir no território nacional. Para mim, eles serão sempre romenos e não “os ciganos”, cabo-verdianos, guineenses, angolanos e não os “pretos”.
É verdade que há o problema da insegurança, mas nem todos os portugueses são santos nem os estrangeiros de países pobres são todos uns demónios. É verdade que há alguns problemas que surgem recorrentemente com alguns grupos, mas esse é mais um problema de autoridade e aplicação da justiça que uma característica étnica ou racial.
Ao contrário do que sugere o governo português, este não é uma questão semelhante à da religião, visto que o país não tem religião oficial e as várias confissões convivem pacificamente. No entanto, a questão da xenofobia é real, ainda que numa pequena escala, e tornou-se num problema europeu nos últimos anos. Um governo que quer saber oficialmente quantos negros, ciganos ou muçulmanos existem no seu território é porque entende que esses são grupos «à parte» na sociedade portuguesa. Não são. Eles são apenas estrangeiros a residir em Portugal e alguns deles até já se tornaram portugueses.
A xenofobia germina nestes pequenos tiques de rotulagem artificial e desnecessária das pessoas.

GAVB

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

OS RECORDES DE RONALDO




O português mais conhecido no mundo continua a bater recordes. Ontem, Cristiano Ronaldo ultrapassou o melhor jogador de todos os tempos – Pelé – em número de golos pela seleção do seu país, ao apontar o seu 78.º golo por Portugal, apesar de estar há cerca de três semanas sem competir oficialmente pelo seu clube, fruto do justo castigo de que foi alvo, após a expulsão em Camp Nou, Barcelona.


Pensava que após a vitória de Portugal no Euro 2016, Ronaldo se sentiria saciado, pois o seu Olimpo tinha sido finalmente alcançado, com a vitória numa grande competição internacional, por seleções. Enganei-me. Ronaldo nunca descansa sobre os louros. Ele não trabalha para chegar rapidamente à reforma nem para atingir um estádio em que já não precisa de fazer mais nada, pois o seu futuro económico, social ou lendário estaria garantido. Nisso o madeirense tem muito pouco de português, porque ele quer sempre superar-se. Mais um golo, mais uma vitória, mais um campeonato, uma taça, uma competição europeia.
A sua fome de triunfos vê-se no desejo que tem de jogar sempre, mesmo naqueles jogos pouco prestigiantes. Recordo um jogo particular que fez em África, pela seleção, há uns anos, em que a maioria dos colegas manifestava pouco empenho. Nos dias que correm soma golos, prémios, campeonatos, Champions Leagues, com uma regularidade absurda e até já merece o reconhecimento elogioso do seu grande rival, Messi.
No momento em que a maioria dos colegas, com a sua idade, entram na curva descendente da carreira, o capitão da seleção portuguesa faz a saborosa colheita de anos de constante superação dos seus limites. 
Hoje não temos mais um Ronaldo ansioso por mais reconhecimento, por mais títulos ou prémios, mas o desejo de os alcançar permanece intacto e intenso, porque ele leva muito a sério aquilo que faz, porque procura aperfeiçoar-se, porque sabe explorar o seu talento até ao limite.

Os recordes de Ronaldo estão muito para além do talento ou da máquina promocional que o cerca. O mundo já assistiu às maravilhas de Ronaldinho, Ronaldo (o brasileiro), Zico, Maradona, Joan Cruijff, Zidane,  Beckenbauer, Puskas ou Di Stefano, mas nenhum deles o conseguiu de uma maneira tão solitária e durante tanto tempo como o português.
Ronaldo foi para Inglaterra há catorze anos. É muito provável que se mantenha no top, pelo menos, mais um ano. Quinze anos é muito tempo para não reconhecermos nele um exemplo de vida, de esforço, de dedicação, de talento e sucesso. 
Será fácil a cada um de nós encontrar os próprios recordes para bater. Os de Ronaldo estão sempre a mudar, porque ele estabelece objetivos muito otimistas, mas pensa sempre em atingi-los. Não perde muito tempo a invejar os dos outros nem a lamentar-se da chuva ou da pouca sorte.

GAVB

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

TOMATINA: UMA BRINCADEIRA QUE "VIROU" ATRAÇÃO TURÍSTICA


Há gente de todo o mundo, da Índia à Alemanha, do Brasil a Itália, da Rússia a Marrocos – a Tomatina de Bunol, em Valência (Espanha) já faz parte do mapa turístico espanhol e tem direito a figurar nas notícias de férias de verão como uma atração turística prazerosa.
Vinte mil pessoas, cento e sessenta toneladas de tomates e adultos com uma enorme vontade de brincar na lama do tomate.


Há certamente gente de todas as idades nesta icónica festa espanhola, mas as imagens trazem-nos sobretudo jovens adultos, o que deixa a entender quão presente ainda está, num homem ou mulher de trinta anos, a vontade de brincar. Libertar o instinto, deixar correr a alegria, descobrir o prazer de pregar partidas e ser alvo delas.
Acho que a Tomatina é mais que uma festa de cor, de belas fotos, de happening social, pois penso que ela revela também a criança que permanece em cada adulto. Ora, se achamos aceitável, saudável até, participar nestas brincadeiras quando somos adultos, também devemos valorizá-las nos mais pequenos.

Quantos de nós estariam disponíveis para uma Tomatina familiar ou entre amigos? Muitas vezes, penso que formatamos demasiadamente cedo os nossos filhos para as exigências do mundo adulto e torcemos o nariz quando eles querem apenas brincar. Acusamo-los de se fecharem no smartphone, mas fazemos o mesmo e sobretudo não brincamos com eles. Um adulto sanciona uma brincadeira quando participa nela. Dá-lhe estatuto e importância.

Com fotos ou sem elas, as memórias felizes de infância também se constroem com brincadeiras onde se suja muita roupa e ninguém tem medo do ridículo, nem de perder, porque nelas todos ganham aquela alegria de que são feitas as pessoas felizes.
gavb