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domingo, 19 de novembro de 2017

AGORA É GOTA A GOTA




Acordou, como sempre, mal disposto e cambaleou até à casa de banho. Abriu a torneira e esta apenas tossiu um espirro de água… despertou os sentidos imediatamente! 
«Que brincadeira era aquela!?»
Rodou o manípulo, mas obteve apenas um esgar envergonhado, como resposta da companhia de águas. Correu até às outras torneiras. O resultado era idêntico. À quarta torneira, o alarme da sobrevivência foi ativado: recolheu em copos todas as gotas que as brilhantes torneiras guardavam nas canalizações. Tinha de lavar a cara, os dentes, tomar o pequeno-almoço. Tomar banho estava, obviamente, fora de questão.

No caminho para o trabalho recebeu uma SMS da companhia que fornecia a água: «A partir do dia X, o consumo de água será racionado. Por mês apenas poderá gastar y m3. O fornecimento da rede pública apenas será ativado das 7.30 às 8.30; das 11.30 às 14h e das 19 às 21.30.»

“Água racionada!?” Quem diria? Ele, que ganhava mais de dez mil euros por mês, que se fazia transportar num ultramoderno carro híbrido e usava a mais avançada tecnologia de comunicação, não tinha ÁGUA para tomar um simples duche.

Três semanas mais tarde, a revolta passara, mas o pesadelo não! Comprara umas centenas de litros de água potável no supermercado, que guardava ciosamente na despensa. Agora, a água, no supermercado, estava quase sempre esgotada, apesar do preço ter subido 500%.

Lá em casa a vida mudara também. Todos procuravam a hora do jantar para tomar banho e acordavam mais cedo, precisassem ou não de sair de casa; fazia-se contas diárias à cota de água ainda disponível; vigiava-se qualquer gasto supérfluo de água. Os banhos não podiam exceder os cinco minutos; a máquina de lavar roupa só trabalhava em dias de lotação esgotada (e como isso mudara a gestão descontraída do guarda-roupa!); deixara de se ouvir o som da água a correr.


A água (ou a falta dela) passara a ser tema de conversa como se um anónimo serviçal se tivesse tornado no único herdeiro da fortuna familiar. Discutia-se o buraco do ozono, as medidas estruturantes para devolver água potável ao planeta, os culpados (Como se isso desse de comer à fúria ou trouxesse a água de regresso às torneiras, sem restrições). Demorou tempo a discutirem o essencial: O que podiam fazer? A partir daquele momento já só podiam adaptar-se a uma nova forma de viver, onde a agua era um bem escasso.

De vez em quando a Raquel recordava os longos banhos de 50 minutos, com água quente sempre a correr e muita espuma, mas já nem ousava verbalizar essas memórias, com medo da reação do resta da família.
Os meses passaram e todos perceberam que o racionamento tinha vindo para ficar. Também ele se tornara um ícone da modernidade como o smartphone, o carro elétrico, a televisão inteligente ou as viagens de avião de três em três meses, para uma escapadinha de fim-de-semana.

Rita percebera que aquela treta da poupança de água, que a professora de Ciências vendia todos os anos como uma pedinte sem sorte, tinha-se tornado cruel realidade. Também para eles que nunca tiveram problemas de dinheiro. Agora tinha um que não podiam resolver pagando.
Ricardo recordou o dia em que a torneira se engasgou. Não fora um sonho mau.
GAVB

sábado, 18 de novembro de 2017

UM GRANDE ACORDO PARA O GOVERNO, MAS FRACOTE PARA OS PROFESSORES


Assinado o acordo, os professores vão ter de o aguentar, pelo menos, mais um ano ( e não apenas até 15 de Dezembro), apesar do governo não o poder garantir de todo, dado que ele pressupõe a sua efetivação lá para 2023, ou seja, final da próxima legislatura, altura em que ninguém sabe se o PS estará no governo e. portanto, a validade do acordo alcançado entre Governo e os sindicatos de professores seja pouco mais do que um processo de intenções.

No jogo de cintura entre sindicatos e Governo, os professores lá marcaram o seu golinho, mas quem saiu vencedor foi mesmo o governo. Senão vejamos:
António Costa não vai pagar mais do que tinha previsto aos professores em 2018;

A reposição salarial dos professores será feita apenas a partir de 2019 e pode prolongar-se até 2023;
O atual governo do PS apenas é obrigado a orçamentar 20% dessa reposição, pois só é responsável pelo Orçamento do 2019. E não é nada certo que esse OE passe pois as posições da esquerda vão endurecer, daqui a um ano;
Com o acordo negociado com o governo, os professores ficam sem grandes razões para grandes reivindicações salariais perante este governo;
Se, daqui a dois anos, o governo não for do PS, 80% do acordo fica por cumprir, porque PSD e CDS não se comprometeram politicamente com nenhum tipo de reposição;
O governo conseguirá entreter os professores durante todo o ano de 2018, sem se comprometer grandemente, porque só precisa de começar a pagar reposições a sério a partir de 2019. Se tiver folga orçamental para o fazer, fá-lo-á e capitalizará politicamente, se não houver realmente dinheiro para ir repondo a todos, veremos pouco mais do que «rebuçados».

A pequena-grande vitória dos professores foi o primeiro-ministro ter feito marcha atrás na contagem, para efeitos de progressão, dos nove anos e quatro meses, em que os professores estiveram congelados. António Costa queria apagar esse tempo. Cedeu, mas pouco, até porque até 2023 muitos professores irão para a reforma, sem terem sido reposicionados no escalão a que tinham direito e portanto perderão parte dos seus direitos «para sempre».
Post Scriptum: mais uma vez foram os professores a exporem-se, a ir à frente nas reclamações, entre as diversas carreiras da função pública (com a honrosa exceção dos enfermeiros), a levar com a ignorância e as críticas mal-intencionadas de gente que cresceu a odiar professores. Entretanto, outros ganharão pela calada.

GAVB   

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

BRUNO DE CARVALHO ESTÁ DESCONTROLADO E PRECISA DE ALGUÉM QUE O PARE URGENTEMENTE



De há uns meses para cá o destempero verbal do presidente do Sporting tem aumentado muitíssimo, atingindo atualmente um nível inimaginável.
O insulto gratuito, desproporcionado e violento tornou-se uma prática tão recorrente que é quase impossível que até o cidadão mais desatento ao mundo do futebol não se recorde de um deles.

Bruno de Carvalho insulta tudo e todos, sejam eles dirigentes dos clubes adversários, ex-dirigentes do seu próprio clube, presidentes de órgãos disciplinares, jornalistas, empresários, adeptos de clubes adversários, sócios e simpatizantes do próprio clube. Não poupa ninguém e parece sempre a escalar o nível do insulto, de tal modo que se torna constrangedor comentá-lo, falar da sua postura, da sua educação.
Nos últimos dias, mesmo sem grande provocação, à mínima crítica a sua incontinência verbal bateu recorde atrás de recorde. Anotemos alguns exemplos.

Sobre Luís Filipe Vieira e a sua entrevista à BTV, onde vaticinou, com alguma basófia, que o Sporting não ganharia novamente nenhuma competição este ano:
«A entrevista de Vieira é de um perfeito idiota!»

Sobre Paulo Pereira Cristóvão, que sugere ter documentos que comprometem a seriedade do presidente leonino, na venda do passe de Tanaka:
«Vá chatear para o raio que o parta.»

Sobre o seu adversário nas últimas eleições, Pedro Madeira Rodrigues:
«Sonso e idiota.»

Sobre o jornalista Rui Santos, que ainda hoje escrevia ser precisa uma entidade que ponha Bruno de Carvalho no lugar:
«Paineleiro mexeriqueiro, com feitio de gaja».



Há nove meses, depois de ser reeleito presidente do Sporting Clube de Portugal, sem que nada o fizesses prever, e no discurso de vitória, Bruno de Carvalho já se tinha saído com esta:
«Bardamerda para todos aqueles que não são do Sporting Clube de Portugal.»
Pensei que fosse apenas um péssimo momento, mas nos últimos dias a linguagem tem descido a um nível inimaginável que é urgente que alguém pare, literalmente, o presidente do Sporting. Para seu bem, para bem do Sporting, para bem do Desporto em Portugal.

GAVB

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

SE ESTIVERES BÊBADO, NÃO ADIANTARÁ DARES À CHAVE




Por enquanto ainda é só uma ideia dos deputados do Parlamento Europeu, mas é provável que passe à prática daqui a alguns meses, pois o objetivo parece-me meritório.
Tentando reduzir ainda mais os acidentes rodoviários causados pelo excessivo consumo de álcool, os deputados europeus querem aprovar uma norma que obrigue todos os condutores profissionais assim como aqueles condutores que já causaram pelo menos um acidente sob o efeito do álcool a usar, nas suas viaturas, um dispositivo de bloqueio de ignição. 
Este dispositivo obrigaria os condutores a ‘soprar no balão’ antes de ligar o carro. E só no caso de não se detetar qualquer vestígio de álcool no sangue é que o carro começaria a trabalhar.


Paralelamente com a introdução deste dispositivo de segurança anti bêbados, o Parlamento Europeu quer impor a taxa 0,0% de álcool no sangue para novos condutores e condutores profissionais.


Ainda no que diz respeito a normas de prevenção e segurança rodoviária, os deputados do Parlamento Europeu propõem a instalação em todos os veículos novos de sistemas de assistência ao condutor, que incluam travagem de emergência automática e aviso para saída de estrada, quando se detetar que o condutor já conduz há mais tempo do que as normas de segurança recomendam.
Falta saber a recetividade da indústria automóvel, que tem apostado forte na renovação tecnológica e por certo não quererá perder o desafio da segurança preventiva.


A Ford, por exemplo, criou o boné anti-sono para os condutores profissionais. Este boné foi desenvolvido para captar o mínimo sinal de fadiga e cansaço dos condutores de longo curso, como é o caso dos condutores de camiões de transporte de mercadorias. Nessa altura, o boné procurará alertar o condutor de que deve parar o mais rapidamente possível através de sinais luminosos, sonoros e vibratórios.

GAVB


quarta-feira, 15 de novembro de 2017

TECNOFORMA: HÁ COISAS EM QUE OS POLÍTICOS NUNCA PERDEM A TÉCNICA NEM A FORMA


Já todos estranhávamos o silêncio do PSD perante tão grande aselhice do governo socialista, mas agora começa a perceber-se a razão. Bruxelas "descascou" a Justiça portuguesa, referindo que aquela absolvição de Passos Coelho e Miguel Relvas, no caso Tecnoforma só foi possível porque eles governavam o país. Afinal, havia indícios de crime.

Os portugueses já suspeitavam. O mesmo tinha acontecido com Sócrates (a uma escala diferente, claro está), quando se suspeitou que tinha recebido uns trocados para aprovar o Freeport, no tempo em que era Ministro do Ambiente. 
Se se recordam, quando o caso foi noticiado pela comunicação social portuguesa e inglesa, a magistrada do Ministério Público, Joana Marques Vidal, mandou arquivar o caso, porque Sócrates era o Dono Disto Tudo ou, pelo menos, pensava que era.

Quando Sócrates foi preso, Passos Coelho disse que “Não somos todos iguais”, o que é verdade, porque a Tecnoforma, ao lado da operação Marquês, parece uma brincadeira de crianças.

Voltando à Tecnoforma, percebemos que afinal os políticos não são todos iguais, mas tentam... e muito.
Repetindo a retórica inicial de Sócrates, também Relvas não se lembra de ter pertencido à Tecnoforma, como Passos Coelho não se lembrava se recebia ou não cinco mil euros mensais da mesma Tecnoforma (também o que é isso de cinco mil euros a mais ou a menos na conta corrente do ex-primeiro-ministro) nem Marques Mendes nos quer esclarecer sobre esta questão, apesar de também ele ter andado por lá. Prefere adivinhar o futuro dos outros. Feitios!


Quem anda com mau feitio é o gabinete de comunicação do governo socialista, que teve de lançar mão desta granada de caserna, depois de tanto ministro meter água, de tantas más decisões de António Costa, de tanta greve de gente com razão.
De facto há coisas em que a classe política não dececiona nem perde a forma ou a técnica: casos de corrupção, lixo varrido para debaixo do tapete, incompetência atroz para gerir a coisa pública.


Post Scriptum: para quem não está familiarizado com as acusações de Bruxelas à Tecnoforma, elas resumem-se da seguinte maneira: parece que o dinheiro que devia ser gasto em formação foi usado para comprar quadros, colchões e frigoríficos. 
No fundo, no fundo a combinação da escola Valentim Loureiro com a de Oliveira e Costa no BPN.

GAVB

terça-feira, 14 de novembro de 2017

O QUE PENSAM OS PARTIDOS DA OPOSIÇÃO DA GREVE DOS PROFESSORES?


Isto de dizer mal do Governo é muito bonito, mas quando chega o momento de marcarem de forma clara a sua posição sobre um assunto melindroso, os partidos da oposição “fogem sempre com o rabo à seringa”.
Quando a Direita política governava Portugal, o Bloco de Esquerda e o PCP sempre estiveram ao lado dos professores e gritavam a plena pulmões que o governo tinha de corrigir as graves injustiças cometidas contra a classe docente. Hoje, parceiros de geringonça estão calados como ratos e nem uma palavra de solidariedade nem uma pressão séria sobre o governo de Costa. 
Afinal são eles ou não são eles que asseguram a passagem do orçamento? São! Por isso, se este Orçamento de Estado, que retira 180 milhões à Educação e maltrata outra vez os professores, passar eles são os primeiros culpados. Serão, para mim, a maior desilusão e Mário Nogueira deve tirar daí uma de duas ilações: ou abandona o PCP ou a Fenprof.

Quanto ao PSD e ao CDS também devemos assinalar a sua hipocrisia, já que fizeram uma barulheira desgraçada quando o Governo acabou com o dinheiro para muitos colégios privados e hoje nem uma palavrinha, por mais hipócrita e oportunista que fosse, para este roubo, que o governo do PS se prepara para fazer aos professores.

Amanhã, os professores partem revoltados e desesperançados para mais uma greve. Estamos cansados de reclamar direitos básicos, igualdade, cumprimento de leis. Estamos fartos de gente hipócrita, de gente que não sabe como se faz, de perder e perder. Estamos cansados de formar gerações e gerações de médicos, engenheiros, economistas, juristas e muitos oportunistas, que década após década se aproveitam do nosso amor à profissão para singrar e desprezar quem os ajudou a evoluir.
Apesar de tudo, ainda esperamos que no meio de tanta desilusão haja alguém com um pingo de vergonha na cara, com sentido de ética e justiça e perceba que BASTA de tanta indignidade.

GAVB

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

INFELIZMENTE, SÓ SERÁ NOTÍCIA O POLÍCIA AGRESSOR, NUNCA O POLÍCIA AGREDIDO


Hoje, um jornal de grande tiragem, em Portugal, referia um dado estatístico assombroso: só nos últimos meses mais de 380 polícias foram agredidos, no exercício das suas funções.
A notícia dá conta de todo o sentimento de injustiça que muitos polícias sentem, quando os inúmeros casos em que são vítimas não são tratados, pela comunicação social, com o mesmo destaque e severidade do que os desmandos de alguns colegas. É injusto, mas sempre será assim.


Um polícia lida com ladrões, marginais, agressores violentos e perigosos. É previsível que quase todos os dias sejam objeto de ciladas, provocações, ameaças, agressões físicas e psicológicas. É verdade que são homens e mulheres como qualquer outra pessoa, mas não podem reagir como qualquer outra pessoa. Uma parte importantíssima do seu trabalho é saber gerir a raiva, o sentimento de injustiça, a distorção dos factos que os criminosos e seus familiares sempre farão das suas atuações. Mesmo em situações adversas ou de grande melindre têm SEMPRE de dar uma resposta exemplar.


Eles são a garantia física e armada do Estado de Direito. É por isso que não podem ter falhas ou quando as têm elas tenham de ser punidas. 
Ainda que os outros tenho batido 100 vezes e eles apenas uma, ainda que os criminosos sejam absolvidos e eles punidos, é imperioso que percebam que não podemos ter complacência com as suas falhas. Temos de ser duros com eles quando erram, porque isso é a garantia que vivemos realmente num Estado de Direito. Mas também temos o dever de os respeitar, de confiar na sua palavra, de estar ao lado deles, no essencial. E o essencial é que, em princípio, eles representam o Bem, a Justiça, a Ordem Pública. Também por isso convém não confundir a árvore com a floresta, ainda que uma árvore nos tenha acabado de multar porque estava maldisposta.

GAVB

domingo, 12 de novembro de 2017

JANTAR COM A MORTE


Se os tipos da Web Summit ainda não sabiam, ficaram a saber: em Portugal, as aparências são para se respeitar. Os portugueses adoram as aparências e não gostam que lhes toquem nessa espécie de sagrado. Pode fazer-se e dizer-se quase tudo, mas é absolutamente inconveniente que se saiba.

A aparência é a manta preferida dos portugueses. Ela cobre a ignorância, dá respeitabilidade a quem não a tem, sossega a população, permite que negócios ilegítimos se concretizem dentro da lei, faz-nos acreditar que somos bem melhores do que aquilo que somos. 
A aparência portuguesa traduz-se bem naquele adágio brasileiro “me engana que eu gosto”.

Nas últimas horas, o país mediático lá descobriu que se faziam jantares de gala no Panteão Nacional. Pior: eles não eram proibidos, pois até havia lei para os regulamentar e, sacrilégio dos sacrilégios, o jantar de encerramento da Web Summit só fora o último.
O primeiro-ministro logo se disse chocado. Ninguém sabe se com a autorização que o seu Ministro da Cultura tacitamente deu para estes jantares entre memórias fúnebres do Camões, Vasco da Gama e Nuno Álvares Pereira, se com a lei que outros fizeram e ele aceitou, se com a sua própria ignorância sobre as leis e regulamentos do país.

Concorrendo com o estado de choque de António Costa para globo de ouro do fingimento político está a indignação do maior partido da oposição e criador da lei que permite estas ceias de gala, na companhia da morte.
Entretanto, o povo, que supostamente deve estar indignado, revoltado, chocado leva com outra “revelação”: «Aqui não há corpos! Há sempre essa confusão. No átrio central do Panteão Nacional encontram-se os cenotáfios, que são memoriais fúnebres, do Infante Dom Henrique, de Nuno Alvares Pereira, Camões, Pedro Álvares Cabral, Afonso de Albuquerque, Vasco da Gama. O que aconteceu na sexta-feira foi um jantar, entre outros que se realizam aqui, no corpo central do monumento, de acordo com o regulamento que está em vigor.», disse a Diretora do Panteão Nacional, Isabel Melo.

Ah bom, no Panteão não estão os restos mortais dos nossos maiores, só uma espécie de memorial. Isso deixa-me mais descansado, mas também algo desconsolado. Sendo assim, acho que até podemos subir de nível e passar de jantares de gala a um concurso da Elite Model Look. Acho que a memória do Camões apreciaria. Por outro lado, nem é preciso estar preocupado em atirar as culpas para o governo anterior, porque a culpa já tem dono: o Regulamento, obviamente.

Enquanto aguardamos nova bronca do governo ou da oposição, era bom que quem nos governa passasse uma vista de olhos pelas leis, decretos-lei e regulamentos que aprovou nos últimos anos, porque já não há paciência para tanta indignação, revolta e estados de choque com aquilo que eles próprios fizeram. Se não têm mais nada para nos dizer, vão jantar com a morte e depois contem como foi.

GAVB

sábado, 11 de novembro de 2017

UM MINISTRO RADICALMENTE PARADO E RADICALMENTE INÚTIL


O melhor soundbite do Ministro da Educação, nos últimos mesesn foi que iria lutar radicalmente pelos direitos professores. Disse-o em passo de fugida a Mário Nogueira, há menos de duas semanas.
Aquele “radicalmente” foi um truque comunicacional perfeito, porque o homem lá foi à sua vida e não teve de ouvir o discurso inflamado que Mário Nogueira trazia preparado.

Como soundbite que era, cumpriu e seu dever de ocasião e esfumou-se. Hoje, o homem que ia lutar radicalmente pelos direitos dos professores foge deles, entra pela garagem do convento de São Francisco, em Coimbra, para não ter de enfrentar os protestos daqueles que diz proteger e solicita que a iniciativa sobre educação, onde acabou por participar, não tivesse jornalistas. Quem mais o poderia ter feito? Os organizadores? Claro, que não!
 Tiago Brandão Rodrigues é um ministro medroso, acossado, que foge daqueles que diz querer proteger, porque, na verdade, perdeu a luta dentro do Conselho de Ministros, há semanas, quando o executivo de Costa discutiu o Orçamento de Estado para 2018.

Foi aí que o nosso radical defensor perdeu em toda a linha e agora não tem coragem de enfrentar aqueles a quem deixou mal. Para que serve um Ministro da Educação que foge dos professores, como se fosse perseguido por qualquer má consciência? Para queremos um ministro que não foi capaz de impor a progressão real dos professores no Orçamento de Estado?

Hoje é claro que Tiago Brandão Rodrigues não tinha bagagem política, pessoal e técnica para ser Ministro da Educação. O pior é que, passados mais de vinte meses, não melhorou em nada. Está pronto a seguir o caminho da Constança e ser sepultado no negro vaso do esquecimento.
Daqui a dias, os professores organizarão uma importante jornada de luta pela efetiva reposição daquilo a que têm direito.
A razão dos professores é total e já dura há dez anos. A injustiça será ainda maior, porque veremos outras classes profissionais progredir na carreira, subir salários, melhorar de vida.

Mário Nogueira terá novamente as costas quentes com mais de cinquenta mil professores nas ruas e uma brutal máquina chamada Razão. Espero que saiba o que fazer com ela e com a força dos professores. Não me interessa nada que digam que estivemos mais de setenta mil nas ruas, que temos toda a razão, mas… Por mim podem ficar com todos os “mas”, que os cedo de bom grado.
A estratégia do Governo já começa a ser definida – “Mais de 46 mil professores vão progredir na carreira", dixit o inefável António Costa.
Espero que o líder da Fenprof tenha estudado bem a maneira de derrotar este tipo de argumentação, demonstrando a justiça da luta dos professores, pela correta valorização da suas carreiras.

GAVB 

terça-feira, 7 de novembro de 2017

PADRES QUE ASSUMEM A PATERNIDADE DEVEM CONTINUAR A SER PADRES?


A questão é melindrosa para a Igreja, que se esforça a cada dia que passa para passar uma imagem de abertura mental a todos as questões que anteriormente eram autênticos dogmas de fé, apesar de serem apenas condutas censuráveis.


Sempre que um padre assume a paternidade de um filho e manifesta o desejo de continuar sacerdote, o dilema coloca-se às cúpulas da Igreja Católica, sobretudo porque o Papa se chama Francisco e quando era bispo de Buenos Aires defendia que os padres deviam assumir a paternidade dos seus filhos, deixando implícita a ideia que deviam continuar a exercer o sacerdócio se assim o entendessem.
A verdade é que desde que chegou a Papa, o argentino não alterou a lei do celibato obrigatório para os padres, mas tem deixado que alguns continuem em funções. Cada caso é um caso, mas a discrição do Vaticano no que diz respeito a este assunto mostra bem como ele é melindroso para todos.

Penso que já não se trata apenas de defender o celibato enquanto conceito abstrato, mas de perceber se aquele sacerdote estará em condições psicológicas, morais e sociais de assumir o seu duplo papel de pai e padre, sem nenhum tipo de constrangimento. Por outro lado há que ter em conta a opinião dos paroquianos, sobre o caso concreto. Se  aceitam o sacerdote e querem que ele continue, apesar da falha cometida ou se preferiam que ele resignasse. Também há que pensar no efeito que a manutenção em funções de um padre-pai terá junto de outros sacerdotes. Que sinal passam o bispo e o Papa a quem fez uma escolha difícil de vida e abdicou, com custo elevado, de uma vida conjugal?

É verdade que cada caso é um caso, mas na Igreja todos os caso são simbólicos e balizam atitudes futuras.
Na minha opinião a Igreja precisa de renovar comportamentos-padrão, para não andar sempre de adenda em adenda, a jeito de comentários maldosos ou da benevolência da opinião dos fiéis.

Ter a coragem de mudar, quando isso for verdadeiramente o mais correto, pode ser um avanço decisivo para o rejuvenescimento da Igreja liderada pelo Papa Francisco.
GAVB

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

ASSEDIAR E DENUNCIAR: UMA QUESTÃO DE PODER

A América de Trump vive o frenesim das denúncias em catadupa de assédios sexuais, praticados há uns anos. Tal como Emma Thompson tinha previsto, Harvey Weinstein era só a ponto do iceberg, embora seja uma ponta bastante extensa, dado o número de casos de assédio e violação que lhe são imputados. Só entre os famosos, seguiu-se o realizador James Toback, o ator Kevin Spacey (agora descrito como um predador sexual), o renomado Dustin Hoffman (hoje mesmo acusado por Meryl Streep de lhe apalpar os seios em teste de elenco) e mais alguns se aparecerão nos próximos tempos.


Aberta a caixa de Pandora, muitas denúncias estarão na calha, a maioria delas ocorridas há largos anos, porque há muita raiva reprimida, muitas contas por ajustar e, sobretudo, porque o poder mudou de mãos.

O assédio sexual, mas também o moral ou o laboral, é uma forma ilegítima, imoral, repugnante até, de exercer o poder. 
Quem assediava sabia disso, quem era assediado também. 
Podemos sempre contra-argumentar que quem era assediado tinha o poder de denunciar. Tinha… e não tinha. Quem era assediado estava, quase sempre, numa posição de fragilidade (económica, social, física) e o mais normal era que a sociedade não desse crédito às suas denúncias. Bastava apenas que não fosse bonita, para que se duvidasse da veracidade da sua acusação. E se a isso se acrescentasse o facto de não ser famosa, então o caso era enterrado em dias, e ela exposta ao ridículo, pelos media.

O ano passado, por esta altura do ano, o juiz do Supremo Tribunal americano, Clarence Thomas, foi acusado pela advogada Moira Smith, de assédio sexual em 1999. Moira, então com 23 anos, só denunciou o caso em 2016. Na mesma altura, uma ex-funcionária do sexagenário juiz americano, Anita Hill, confirmou a versão de Smith, dizendo que também fora vítima do assédio de Clarence Thomas. Apesar das evidências, o juiz Thomas foi confirmado como uma dos juízes do Supremo Tribunal americano.

O que distingue o caso do juiz Clarence Thomas, dos de Harvey Weinstein, Toback, Spacey ou Dustin Hoffman? Anita Hill responde de maneira elucidativa: as denunciadoras de hoje são mulheres lindas e poderosas. Ninguém questiona que elas possam estar a mentir.

Tanto para assediar como para denunciar o assédio a questão é sempre a mesma: PODER. 

GAVB

sábado, 4 de novembro de 2017

DESCONGELAR NÃO É RECONSTRUIR NEM TREZE ANOS SÃO TRÊS


António Costa disse hoje que os professores portugueses vão ganhar dez anos de vida no início do próximo ano. Se ele tivesse realmente esse poder, acho que poucos de nós nos importaríamos, mas por enquanto o homem que governa Portugal ainda não tem o dom do rejuvenescimento coletivo, sobrando-lhe por isso o de malabarista das palavras e da política.

Diz António Costa que "descongelar não é reconstruir", clara alusão à reivindicação dos professores em serem colocados no índice remuneratório a que teriam direito, pelos anos de serviço prestado, em tabela aprovado por governos de Portugal e nunca revogada, apenas suspensa. 
Ora, reconstruir, caro António Costa, era pagar retroativamente o que ficou por pagar em 2005, 2006, 2007 e depois entre 2010 e 2017. Na verdade, ninguém lhe pede isso, mas que a partir de agora passe a pagar aos professores, tendo em conta o número de anos de serviço efetivamente prestado à função pública.

Quer pagar-nos como se estivéssemos em 2005 ou 2010? Nós também queríamos ter o IVA e o IRS a valores de 2005, mas não temos; o povo português adorava ter uma taxa de 6% de IVA na eletricidade, mas não tem. 


E não nos diga que todos ficaram congelados que não é verdade, porque alguns setores públicos passaram entre os pingos da chuva.
Não tem dinheiro suficiente para pagar o que deve? Então, não finja que tem ou apresente soluções alternativas, que as há. 
Já pensou em trocar a dívida por títulos de dívida pública, a pagar daqui a dez anos? Já pensou em antecipar em 5 anos a idade de reforma a quem nega 10 anos de carreira? Quando estamos na política, empenhados em ser justos e sérios com todos e não apenas com alguns, há sempre soluções, ainda que estas não consigam reparar todo o mal feito, porque hoje, todos nós já percebemos que não foram os funcionários públicos os pais e as mães da crise que o país atravessou.

GAVB 

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

A DESCENTRALIZAÇÃO EDUCATIVA É POLÍTICA E SERÁ MAL FEITA


Os Presidentes de Câmara querem a descentralização educativa para gerir as escolas como quem gere a autarquia; os Diretores das escolas querem a autonomia das escolas para reforçarem poderes antes que a autarquia entre pelo seu quintal dentro; os professores só queriam que lhes contassem o tempo de serviço que prestaram nos últimos dez anos; os alunos querem uma Escola que lhes abra perspetivas de futuro; os pais gostariam de lhes tomassem conta dos filhos até às seis da tarde.

Claro que ficará por fazer aquilo que é mais fácil, óbvio e justo executar: os professores continuarão a ver navios e descerão mais uns degraus na relevância que (já não) têm no sistema.

A ideia política do Partido Socialista sempre foi a municipalização. Entregar as escolas às autarquias, professores incluídos. Nunca o afirmou claramente porque sempre soube que os professores eram (e são) contra, porque não sabia muito bem como fazê-lo sem se perceber que a grande intenção era política, isto é, satisfazer o apetite político dos vários agentes educativos locais ligados ao partido.
O governo de Costa não avançará «radicalmente» para a Municipalização porque não é nada certo que o PCP e o Bloco acompanhem a ideia, mas tentará ir fazendo «a coisa» sorrateiramente, de tal modo que a medida seja dada como irreversível e inevitável, quando estiver madura. 

Entretanto, os Diretores lutam arduamente pela manutenção do seu poder, através da reivindicação da autonomia. E não me admiraria nada que muitos Diretores se lembrassem que no
século passado também foram professores e os convoquem para defender a autonomia, dizendo que a municipalização é um ataque político à escola pública e que tal diminuiria a importância dos professores na governação de cada escola. É verdade que isso aconteceria, mas as primeiras vítimas dessa secundarização seriam os Diretores de escola.

Enquanto os grandes se batem nos gabinetes pelo futuro controlo do poder nas escolas públicas portuguesas, o pessoal que mete a mão na massa todos os dias, há décadas, nem sabe se faz greve ou não faz greve, a que greve vai ou deixa de ir, que formas de luta deve adotar para além da greve, se a greve de Mário Nogueira e da Fenprof do próximo dia 15 de Novembro falhar o objetivo.
Por falar em lutas sindicais, não seria expectável que Mário Nogueira conseguisse bem mais com a geringonça de que com o governo de Passos e Portas? Seria, seria…

GAVB

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

AS MULHERES E A POLÍTICA: (AINDA) UM DESAFIO PARA A DEMOCRACIA PORTUGUESA

        
A sub-representação das mulheres na política é um fenómeno universal e Portugal não é exceção. Perante a consciência desta desigualdade injusta, vários países adotaram uma postura mais proativa nas últimas décadas, recorrendo a diversas medidas de ação positiva, com o intuito de solucionar este problema social de uma forma mais rápida e eficaz.
         No nosso país, pode afirmar-se que medidas como as “quotas voluntárias dos partidos” e a “Lei da Paridade”, constituíram um grande passo relativamente à promoção da igualdade de género na política portuguesa, tendo, sem dúvida, contribuído para aumentar o número de mulheres neste contexto; contudo, estes processos revelam-se ainda redutores no que se refere às projeções ao nível do poder local: a evolução para a igualdade tem sido mais lenta, havendo já quem se questione se não serão necessárias medidas alternativas às acima evidenciadas.


De facto, uma década após a sua adoção, a participação das mulheres na política autárquica continua abaixo do requerido pela mesma em todos os órgãos. Poderá isto prender-se com as representações sociais de certa forma cristalizadas na nossa sociedade, onde o homem está associado à autoridade, ao poder e ao protagonismo no que se refere à ambiência política, enquanto que o género feminino aparentemente se pauta por princípios como o equilíbrio, afetividade, passividade e, consequentemente a fragilidade? Terá de facto a consciência coletiva despertado para uma nova realidade?

        
Apesar de todos os partidos rejeitarem qualquer entrave formal à participação política feminina, o certo é que esse facto não envolve necessariamente um forte ímpeto intervencionista no sentido de alterar essa mesma situação. Com efeito, no âmbito do atual contexto social português, a probabilidade de um homem ser ou de se tornar num agente de intervenção política continua a ser amplamente superior à probabilidade de o mesmo suceder a uma mulher.
         Tal resultado é revelador das fortes resistências à mudança existente, mostrando que, apesar da implementação de uma lei que pretende promover a igualdade de género, o poder autárquico continua a ser dominado pelos homens.

         Assim, e embora a “feminização da política”, provocada pela “Lei da Paridade” já tenha gerado algumas mudanças, Portugal continua a ser um país fortemente genderizado. Será, portanto, altura de agir e refletir sobre o papel da mulher na política e o (ainda) visível défice da sua representação nos órgãos decisórios da comunidade.
Rafaela Leite 

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

O RITUAL DAS CAMPAS REGA A MEMÓRIA COM FLORES

Todos os anos é a mesma coisa: Amélia arrasta o marido estrada fora, em penosos quilómetros percorridos em silêncio, por estradas vazias de gente e de vida, até à terra dos pais. Já não a reclama como sua, porque, na verdade, já não se sente filha daqueles penedios tristes, onde passara a infância.

Ao chegar à terra, alguns velhos, que sobraram do tempo dos pais, acenam e sorriem-lhe, buscando na memória ténue o tempo em que Amélia brincava à cabra cega. Retribui o doce cumprimento e dirige-se à casa paterna.

Está fechada desde o Verão. Os móveis cobertos de pó, as fotografias envelhecidas trazem de volta a tristeza pela morte do pai e, sobretudo, da mãe, há cinco anos. Abre as persianas, mas não tem coragem de fazer o mesmo às janelas. O cortante frio transmontano deprime-a e só mesmo o abraço carinhoso do esposo a faz regressar a uma paz resignada. A casa está fria e precisa que a lareira comece a crepitar. Começam a falar das coisas que necessariamente terão de executar para passar ali a noite...

O primeiro calor da lareira abre um breve sorriso em Amélia e Luís aproveita para lhe oferecer um copo de vinho tinto. Ela agradece o gesto de ternura e bebe um gole para não defraudar o marido.
O sino da igreja   trá-la de volta ao motivo da sua estadia ali. Pega no molho de flores que trouxe do Porto e dirige-se para a porta.
    - Vens?
Luís responde com um aceno afirmativo e segue-a em silêncio. Ouvem-se os passos ritmados, nos paralelos irregulares da rua, que leva dezenas de homens e mulheres até ao cemitério. 
Casacos escuros transportam belos ramos de flores coloridas.
Amélia dirige-se ao seu pequeno santuário. Coloca delicadamente as suas flores brancas e lilases sobre o mármore cinzento escuro. Não reza. Esqueceu-se por completo como se faz, mas rapidamente ultrapassa esta pequena vergonha de consciência e deixa que a memória a transporte a um Tempo, onde não havia velhice, nem doença nem morte. 

Rapidamente começam a emergir os slides mais significativos da sua vida como uma apresentação em powerpoint. 
Não consegue decifrar o tom da música de fundo, mas percebe claramente que o «filme» vai já para lá de meio. Quer rever alguns flashes que já passaram, para capturar um olhar feliz da mãe, mas também aquela apresentação sumária da sua vida está pré-programada e não permite mais do que uma visualização.

O leve toque do marido no ombro acorda-a daquele transe insólito. Diz-lhe para ir andando. Ele espera mais uns segundos, mas obedece-lhe. É então que ela olha novamente as flores que trouxe e vê o como os vento espalha algumas pétalas.
Percebe, por fim, que tudo aquilo é sobre ela e para ela. Aquela obrigação cristã trouxe-a à aldeia primordial para se reencontrar consigo e não para homenagear os pais com flores. 
Para ela era evidente, agora, que não podia deixar morrer a memória do que fora, porque a sua História se escrevia com ela. Aquelas flores não eram outra coisa senão um pouco de água sobre a sua memória ressequida.
GAVB 

terça-feira, 31 de outubro de 2017

PROFESSORES: NÃO SÃO OS MILHÕES QUE CUSTAM A MAIS, MAS OS MILHÕES QUE FICARAM E FICARÃO POR PAGAR


Há dois dias, o governo, via Correio da Manhã, veio tentar explicar aos professores por que razão lhes rouba 10 anos de progressão nas carreiras e não lhes paga aquilo que lhes deve, apesar de ter condições para saldar algumas dívidas.

É verdade que é quase um milagre um governo do PS inserir publicidade não paga na capa do Correio da Manhã, mas o alvo sendo os professores, até o Correio da Manhã faz uma pausa no constante metralhar das políticas governativas.
Mais do que se justificar, o governo pretendia com aquele título bombástico no CM virar, mais uma vez, a opinião pública contra os professores. 
Reparemos que não se refere quanto o Estado está em débito com os médicos, com os enfermeiros, com os funcionários das finanças ou até da Caixa Geral de Depósitos. Interessava atingir os professores porque eles são muitos, têm força reivindicativa e porque foram a classe social mais atacada pelos sucessivos governos, nos últimos 10-15 anos. 

Por outro lado, não é de excluir que o governo tenha a tentação de acertar algumas contas com outras classes profissionais e excluir os professores, pois aqui a fatura é grande. E é grande porque todos os governos, na última década, acharam que  reformar a Função Pública era igual a despedir professores, impedir-lhe durante 10 anos a progressão e reduzir-lhes salários. 
Ao contrário dos médicos e enfermeiros, os professores não tinham alternativa no privado; ao contrário dos funcionários das finanças, os professores não tinham prémios de produtividade e suspensão do congelamento das carreiras.
Agora há dinheiros, mas para os professores não. Os professores são uma espécie de banco público onde os sucessivos governos fizeram todo o tipo de desfalque e chegada a hora de acertar contas, o governo em funções diz que não paga, porque o calote é grande.
Não pagam nem vão pagar, mas não é porque não há (houve) dinheiro. 

Ainda há dias, o governo acabou de estoirar mais de 400 milhões, por causa da sua incúria, má administração, incompetência. Dois dias de Julho e outros dois em Outubro, resultaram em mais de cem mortos, milhares e milhares de hectares de floresta ardida, milhares de animais mortos, empregos destruídos. O governo vai pagar mais de 400 milhões para repor o que tinha no início do verão. É uma despesa extra, é uma despesa necessária agora, mas que era perfeitamente evitável. Só esse dinheiro dava para pagar quase toda a conta em atraso aos professores.
Depois dos quatro mil milhões de desfalque na CGD, depois dos milhões gastos com a proteção civil que exibiu a pior proteção dos últimos cem anos, depois de…
Todos os anos, os professores produzem bons médicos, excelentes advogados, razoáveis economistas, mas não conseguem produzir meia dúzia de políticos decentes há décadas. 

GAVB