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quarta-feira, 31 de agosto de 2016

À LEI DA MULTA


Os portugueses têm uma relação estranha com a Lei. Estão constante a invocá-la quando é “furada” impunemente pelos outros, especialmente se são ricos e poderosos, fazem de conta desconhecê-la quando ela se lhes aplica, e entendem mal o seu espírito.
A Lei é para cumprir, ainda que seja injusta. No entanto, a maioria do povo português só a entende quando fica claro, na secção das multas pecuniárias, quanto custa a ousadia de não cumprir.
Vem isto a propósito ode uma notícia deste final de agosto, segundo a qual, o governo prepara legislação para multar quem não der prioridade a idosos, grávidas, pessoas com deficiência. Esta lei/ameaça tanto se aplica ao setor privado como ao setor público, com a exceção dos hospitais e das conservatórias. Supermercados, autocarros, serviços camarários, finanças, etc.. Uma variedade grande de serviços pode ser multado de cinquenta a dois mil euros, por não cumprir a lei.


Muitos dirão que é a caça do governo à multa, tentando fazer dinheiro com tudo e mais alguma coisa; eu acho que nos devemos interrogar por que é que o Estado tem necessidade de impor uma lei sancionatória deste género. Obviamente porque há muita gente que faz de um imperativo moral e ético, como dar prioridade a um idoso ou a uma pessoa com deficiência numa fila de supermercado, uma treta.
Algo parecido já aconteceu com a proibição do fumar em recintos fechados, como por exemplo cafés e restaurantes. Uma pequena minoria achava-se no direito de incomodar todas as pessoas que estavam num café, num restaurante, numa repartição pública, com o incomodativo cheiro do tabaco, porque não se queria levantar e fumar o seu cigarro ao ar livre. Nada os demovia: grávidas, crianças, pessoas doentes, empregados que tinham de aguentar oito/dez horas por dia com o cheiro altamente nocivo do tabaco. Que tivessem paciência, que o seu vício era prioritário! Fizeram-se imenso debates, trocaram-se acesos argumentos até que a legislação punitiva avançou. Quando os proprietários dos estabelecimentos comerciais começaram a ver o preço das multas e o investimento que tinham que fazer para criar um espaço para não fumadores, não foram de modas e disseram aos queridos clientes que fumar só seria possível fora da porta. O tabaco desapareceu de 90% dos estabelecimentos comerciais, onde a generalidade das pessoas costuma socializar.
Com a prioridade aos idosos, às grávidas e às pessoas com deficiência vai acontecer o mesmo, porque se há lei que os portugueses entendem bem é a lei da multa.

Gabriel Vilas Boas

terça-feira, 30 de agosto de 2016

IMI AO LÉU


Desde que se soube que o governo pretende taxar ainda mais as casas que tenham uma boa exposição solar, que a sociedade portuguesa vai descobrindo paulatinamente algumas «curiosidades» acerca deste imposto que obriga os proprietários a pagar por aquilo que é seu.
Um falso engano do fisco, obrigou a Igreja Católica a reclamar sobre um direito de não pagamento de imposto que a Concordata do Estado português com a Santa Sé lhe confere. Esta semana descobriu-se que os partidos políticos não pagam IMI sobre os imóveis de que são proprietários. Dentro de algumas semanas descobrir-se-á que algumas câmaras municipais andam a isentar os moradores dos centros históricos do pagamento de IMI. Depois saber-se-á que alguns grupos sociais beneficiam de isenção parcial ou grandes descontos.

Os latinos costumavam dizer que “Dura lex, sed lex” (A Lei é dura , mas é Lei), mas esta é uma máxima que raramente se aplicou em Portugal, onde a lei é dura, mas apenas para os parvos ou aqueles que não têm capacidade de se “mexer” nos passos perdidos do poder, onde as pressões se convertem em ganhos, numa espécie de “mão que lava a outra”, onde impera a Lei segundo a qual se tu não me denunciares eu também não te denuncio.
Obviamente o fisco não se enganou ao mandar notificações para os padres pagarem IMI das propriedades da Igreja Católica, mas antes fez-se de tonto, para poder suscitar o debate na opinião pública sobre a (i)moralidade dos privilégios fiscais que a Igreja Católica tem e que no seu entender não deveria ter.

Rapidamente a Igreja contra-atacou e pôs a correr a informação, verdadeira, que os partidos políticos também não pagam IMI, procurando atingir o PS e sobretudo PCP (com um património imobiliário digno de qualquer banqueiro) e BE que gostam de ser os paladinos da moral política.
Ficaram todos mal na fotografia, mas uns e outros não se importam. Vão continuar a assobiar para o lado, sorrindo amarelo de raiva para o parceiro que os denunciou e enviando-nos a conta para pagar todos os anos.

Gabriel Vilas Boas   

sábado, 27 de agosto de 2016

HOTÉIS QUE PROÍBEM CRIANÇAS


Quando comecei a deparar-me com esta realidade, a minha reação inicial foi muito negativa. Com que direito um hotel proíbe o acesso a crianças? Que fizeram elas de mal? Apesar de achar a medida a todos os títulos lamentável, discriminatória e atentatória dos mais básicos direitos de qualquer cidadão, procurei perceber as razões de quem impunha essa medida.
Em primeiro lugar, fiquei a saber que esta interdição a menores, por parte de determinadas unidades hoteleiras (muitas delas de topo), era uma “imposição do mercado”, ou seja da clientela, e não uma maldade dos seus proprietários. Seriam então, esses clientes anti crianças? Por que manifestavam o seu desagrado com os petizes nos hotéis que frequentavam? A razão mais invocada é a confusão causada pela pequenada pelos corredores do hotel, na sala de jantar, na piscina, no bar e outros espaços comuns.

Claro que há crianças e crianças e tendemos a achar que as nossas são uns amores e as do vizinho da mesa ao lado uns autênticos terroristas, capazes de brincar ao esconde/esconde debaixo de nossa mesa de jantar ou de usarem a piscina para um lamentável concurso de quem dá o chapo mais estridente da tarde. Muitos pais são incapazes de corrigir os seus filhos ou de os repreender, quando é evidente quanto incomodam os restantes clientes.
Há ainda que ter em conta que a presença de criança inibe (ou devia inibir) alguns comportamentos sociais por parte de determinados clientes, que ficam desagradados com a presença pouco discreta da pequenada.
Como referi anteriormente, há crianças e crianças. Muitas delas são de uma educação e discrição exemplares. Além disso, estão perfeitamente familiarizadas com as regras de convivência em unidades hoteleiras, de modo que a sua presença não causa qualquer incómodo ou constrangimento. Proibi-las é uma medida desnecessária e uma péssima publicidade para o futuro, porque daí a alguns anos serão elas a escolher o hotel onde ficar e não escolherão, por certo, aquele que os excluiu.
Embora entenda a política de determinados hotéis, continuo a achar negativa a política da «proibição». O melhor seria um conceito algo diferente – Recomendado / Não recomendado. Quando os pais procuram um determinado hotel para a sua família deviam ser informados antecipadamente que o hotel era “recomendado” ou “não recomendado” para crianças e tirar daí as respetivas ilações. Não é bom forçar a estadia num local que supostamente não é recomendado para nós, mas é ainda muito pior ver-se excluído por ser criança, até porque a função principal de um hotel ainda é garantir dormida, ou seja, algo que se faz de modo privado.

Gabriel Vilas Boas 

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

PHOTOGRAPH

Hoje, enquanto caminhava junta ao mar, os meus ouvidos tropeçaram nesta lindíssima "Photograph" de Ed Sheeran. Suavemente, o som ritmado das ondas foi brincando com a música e trazendo à memória histórias antigas. E é isso que as fotografias verdadeiramente transportam. Trazem pessoas, emoções, sentimentos dentro delas e não podemos deixar de nos emocionar.
Por vezes, agarramos naquele pedaço de papel amarelecido pelo tempo e passamos suavemente a mão por rostos que já não voltam, tentando desesperadamente recuperar os afetos que o tempo levou. No entanto, a única coisa que conseguimos é verter algumas lágrimas amargas, antes de fecharmos novamente a caixa que sabe de cor a nossa história.

As fotos que nos emocionam fazem-nos sofrer, mas também nos fazem sorrir, amar e ganhar forças na adversidade. Na mais cruel escuridão, uma fotografia pode impedir-nos de esmorecer ou capitular. É dessas fotos que gosto, das que trazem dentro sentimentos e pessoas e, por vezes, me fazem chorar de saudades. 

Gavb

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

ESTAGIÁRIO A FAZER DE OTÁRIO


Há um mês escrevi um post irónico intitulado “Os Patrões Exigem”, onde pretendi destacar a atitude algo arrogante do patronato português no diálogo que mantinha com o governo da República, tratando-o como se este fosse um seu subordinado. Esta semana, o Conselho Nacional da Juventude denunciou uma prática ilegal e, sobretudo, imoral de alguns patrõezinhos portugueses sobre os jovens estagiários.
Para incentivar a contratação de jovens licenciados, o governo patrocina o seu salário em cerca de 700 euros, cabendo ao empresário apoiado acrescentar cerca de 50% deste valor à folha salarial do estagiário de maneira a que este jovem, altamente qualificado, tenha um salário minimamente compatível com as suas competências e habilitações.
E o que fazem os espertalhões dos patrões? Obrigam os seus jovens empregados estagiários a deslocarem-se ao multibanco e levantarem cerca de 35% do valor atribuído pelo Estado e a entregá-lo em numerário (para que não haja provas da marosca) à empresa onde trabalham. Os jovens estagiários têm ainda de pagar do seu bolso a totalidade do desconto para a Segurança Social quando o que diz a lei a esse respeito é que o pagamento tem de ser solidário entre empregado e empregador.

Com este esquema, o estagiário trabalha por 65% do valor que supostamente é o seu salário e estes patrões pagam pouco mais de 150 mensais por um trabalhador altamente qualificado. Se fizermos as contas ficam a um euro por hora.
Esta trafulhice, esta completa subversão das regras de apoio à contratação de jovens licenciados passa impune porque os jovens atingidos estão numa posição de enorme fragilidade, caso denunciem o esquema ilícito, e têm dificuldade em prová-lo porque o dinheiro entre em numerário na empresa.
Lamento que o governo e  as autoridades fiscais não atuem rápida e eficazmente sobre estes espertalhões, que os sindicatos não amplifiquem a denúncia do CNJ e, especialmente, que o meu país tenha este tipo de “empreendedores” que são um exemplo de sucesso neoliberal à maneira chinesa.
Esta gente nunca empregará um único estagiário como nunca fará crescer a economia. Acredito que estes patrões de vão de escada enriqueçam, mas à custa do esforço e competência dos outros e da inoperância do Estado, que se deixa comer por lorpa. 
Esta é a gente que adora falar em colaboradores em vez de trabalhadores, que abomina contratos de trabalho, mas está sempre a reivindicar apoios estatais às suas prósperas contas bancárias.

Gabriel Vilas Boas 

terça-feira, 23 de agosto de 2016

QUOTA DE CACA


Há medida que os norte-coreanos vão contactando com outros povos, vamos conhecendo histórias mirabolantes deste regime extraterrestre que elegeu os Estados Unidos como a encarnação do diabo.
No final do século XX, com o colapso da União Soviética, a sociedade norte-coreana 
passou um mau bocado. Os soviéticos pagavam não só o regime como alimentavam literalmente toda a sociedade.
Quando os amigos comunistas de Moscovo deixaram de pagar a conta começou a faltar tudo. Na agricultura faltavam os combustíveis e os fertilizantes. O regime começou por incentivar a população a “fabricar” fertilizantes, lembrando que cada um podia contribuir com o mais natural dos fertilizantes: os excrementos humanos.

Rapidamente a sugestão passou a ordem e cada cidadão devia contribuir com uma determinada quantidade de excremento humano para a salvação da agricultura nacional. 
Ninguém podia ficar de fora e até as crianças em idade escolar tinham de preencher a sua “quota de merda”. Ora essa quota devia ser preenchida com uma determinada quantidade de excremento humano trazido de casa, por isso os pais ensinavam os filhos a nunca fazerem as suas necessidades fisiológicas na escola, já que o excremento natural dos petizes era absolutamente necessário para cumprirem a “quota de merda” que cada família tinha de preencher, para não sofrer severos castigos de um regime duro com aqueles que falhavam as diretrizes do governo, por mais absurdas que fossem.

Cada família defendia a sua casa de banho (quase todas elas ficavam no exterior da casa) como se de um tesouro se tratasse. Eram fechadas a cadeado e vigiadas durante a noite, porque os assaltos eram frequentes.

A sociedade norte-coreana vive há largos anos num regime absurdo, corrupto, ditatorial e altamente perigoso, pois a “loucura” dos seus líderes vê-se até nas mais absurdas leis.
Gabriel Vilas Boas

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

IM(P)UNIDADE DIPLOMÁTICA


Só ao final de cinco dias o governo iraquiano decidiu reagir aos bárbaros acontecimentos da passada semana em Ponte de Sôr, onde um jovem português, de quinze anos, foi agredido e atropelado pelos dois filhos gémeos do embaixador iraquiano em Lisboa.
Segundo a imprensa portuguesa (porque das autoridades policiais, judiciais e governamentais só tivemos umas míseras palavras de quem tem mais medo diplomático que coragem para defender a honra dos seus compatriotas), os dois iraquianos envolveram-se numa discussão com jovens portugueses, seguindo-se o espancamento e atropelamento do jovem Rúben, que desde há cinco dias luta pela vida, num hospital português, resultado das múltiplas fraturas causadas pela dupla iraquiana, que, confrontada pela polícia, usou a imunidade diplomática para “se pôr ao fresco”, já que por esta altura não se sabe do seu paradeiro.

Até hoje o governo diz que está “acompanhar” o caso, as autoridades judiciais abriram um inquérito para averiguar o sucedido (Não lhes bastava o auto policial e o rapaz no hospital com múltiplas fraturas, a lutar pela vida?!), enquanto da embaixada iraquiana não houve nem uma nota de lamento pelo sucedido ao jovem português, apesar da envolvência dos filhos do embaixador.
Não admira que com tantos paninhos quentes, tanta cobardia, tanta falta de coragem e carácter por parte das autoridades portuguesas, o governo iraquiano tenha acabado de emitir uma nota que é uma vergonha. 
Segundo o governo iraquiano, os filhos do seu embaixador em Lisboa foram “severamente espancados” por um gangue de seis pessoas em Ponte de Sôr, sendo que um delas partiu a cana do nariz a um dos filhos do embaixador.

O mais hilariante na nota governamental iraquiana é que os filhos do embaixador foram severamente espancados, mas ainda tiveram forças para voltar ao restaurante onde o incidente se deu e reatar a discussão com o “chefe do gangue”. Apesar de violentamente espancados, nenhum dos jovens iraquianos precisou de ir ao hospital, mas teve forças suficientes para espancar um rapaz de quinze anos e atropelá-lo, numa clara tentativa de homicídio.
Diz o governo iraquiano que os filhos do embaixador tinham carta e não usaram o seu carro privado como carro diplomático. Está visto que os iraquianos não sabem que em Portugal só uma pessoa com 18 anos pode ter carta de condução (os filhos do embaixador têm dezassete) e provavelmente desconhecem que se um normal cidadão português atropelasse outro e o deixasse entre a vida e a morte como o Rúben foi abandonado no meio da estrada, não tinham ido para casa invocando a imunidade diplomática.

Está à vista de todos que estes iraquianos não vão assumir culpa nenhuma nem vão levantar a imunidade aos filhos do embaixador, que provavelmente a esta hora já estarão fora de Portugal. 
Na nota à imprensa acabada de publicar, o governo iraquiano nem tem uma palavra para com o jovem alentejano que tenta sobreviver a todo o custo.
A esta altura o governo português reza a todos os santinhos para que o Rúben se salve, porque se tal não acontecer as repercussões na opinião pública serão fortíssimas. De contrário,  não estou a ver coragem aos nossos governantes para tomarem a única atitude possível: ou os rapazes se apresentam às autoridades portuguesas para responder pelo crime cometido ou os pais acompanham os filhos e todo o corpo diplomático até Bagdad definitivamente.

Gabriel Vilas Boas

domingo, 21 de agosto de 2016

LUGARES PROIBIDOS



A música é de Helena Elis, apesar de muita gente pensar que a autora é Adriana Calcanhotto. A música tem uma melodia encantadora, mas o melhor é indubitavelmente a letra. Nela transparece a beleza, a sedução e o erotismo da paixão. Sabe bem ouvi-la vezes sem conta e em cada vez reparar na poesia de cada verso.

Eu gosto do claro quando é claro que você que me ama
Eu gosto do escuro no escuro com você na cama
Eu gosto do não se você diz não viver sem mim
Eu gosto de tudo, tudo que traz você aqui
Eu gosto do nada, nada que te leve para longe
Eu amo a demora sempre que o nosso beijo é longo
Adoro a pressa quando sinto sua pressa em vir me amar
Venero a saudade quando ela está pra terminar
Baby, com você já, já
Mande um buquê de rosas, rosa ou salmão
Versos e beijos e o seu nome no cartão
Me leve café na cama amanhã
Eu finjo que não esperava
Gosto de fazer amor fora de hora
Lugares proibidos com você na estrada
Adoro surpresas sem data
Chega mais cedo amor
Eu finjo que não esperava
Eu gosto da falta quando falta mais juízo em nós
E de telefone, se do outro lado é a sua voz
Adoro a pressa quando sinto sua pressa em vir me amar
Venero a saudade quando ela está pra terminar
Baby com você chegando já


sábado, 20 de agosto de 2016

GANHAR A VIDA

 Ganhar a vida é muito mais do que ganhar dinheiro. Isso não é tão difícil assim. 
Infelizmente, alguns de nós precisam de enriquecer para perceber que continuam pobres! Há uma insatisfação que os preenche por completo e torna pouco útil toda a riqueza acumulada.
Ganhar ou perder a vida depende, em grande parte, de nós. Começamos a ganhá-la quando sabemos perfeitamente o que queremos e não queremos para a nossa vida. Que papel terão os afetos, os valores, o dinheiro, o poder, a imagem social, a profissão, o amor?
Não se ganha nada de jeito quando não conseguimos definir, com honestidade, o que queremos. Por vezes, o que queremos parece desadequado, megalómano, irrealista ou até estranho. Não nos devemos intimidar, desde que essa definição seja feita por nós e não pela mãezinha, pelos amigos ou por qualquer manual de etiqueta e boas maneiras.

Quando o mapa da vida que queremos está perfeitamente desenhado na nossa cabeça é fácil chegar ao tesouro. Há várias maneiras de chegarmos aos nossos objetivos…
Normalmente, ter dinheiro não é um objetivo, mas um instrumento para atingir mais facilmente as nossas metas. Às vezes confundimos objetivo e instrumento. Gastamos muito tempo persistindo numa convicção errada, apesar de sabermos que muito daquilo com que sonhamos não está à venda. A tentativa cega de Ter diminui bastante a nossa capacidade de Ser.
O tempo passa e ficam muitas coisas por dizer, outras tantas por fazer até que a amargura chega e toma conta do nosso coração.
A sensação de falhanço é evidente, embora tenhamos “ganho a vida”… perdão, tenhamos ganho muito dinheiro. No fim é fácil dizer? Errado. É fácil adivinhar este tipo de final quando abdicámos de escrever o princípio da história.

Gabriel Vilas Boas 

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

O GOVERNO JÁ NEM NOS TACHOS MANDA


O Banco Central Europeu (BCE) vetou metade dos nomes que o governo português nomeou para a Caixa Geral de Depósitos (CGD).
Supostamente, o governo exerce o poder num país soberano e a CGD é um banco de capitais exclusivamente públicos, mas o BCE é que decide quem pode ou não pode ser seu administrador.
Como muito bem notou Pedro Santana Lopes, o BCE ultrapassou todas as marcas. Não é um governo socialista que está a ser humilhado, mas sim o governo de Portugal, o país e o povo português.
Quando um governo de um país não tem autonomia para nomear (bem ou mal, isso não interessa para o caso) a administração de um banco público, deve questionar-se o que está a fazer em funções.

Se há regras claras, escritas e que todos os outros governos europeus cumprem (e isso é facilmente verificável) e o governo as infringiu com estas nomeações frustradas para a CGD, então governo português é grosseiramente incompetente e deve demitir-se. Se o caso não é esse, então o BCE está a exorbitar claramente as suas funções e poderes e o governo português deve explicar-lhes que em Portugal manda o governo português.
O problema do governo português é que as razões evocadas pelo BCE, para estas palmadas no rabo do menino mimado e pobre mas com manias de rico, são atendíveis. O BCE diz que os nomeados pelo governo para a CGD têm excesso de «tachos» e défice de competências. Aconselhou alguns a irem estudar primeiro, para adquirirem as competências suficientes para o cargo.

E quando vemos a lista dos vetados verificamos que muitos deles exercem cargos em importantes instituições bancárias e de outro tipo, como se a nova administração da CGD fosse uma espécie central de negócios do detestável bloco central de interesses.
Entretanto o maior banco português, o maior financiador da economia nacional e o verdadeiro braço armado do governo para intervir na economia está parado! Os que vão sair nunca mais saem e estão em gestão; os que entram chumbaram no exame de admissão de modo humilhante.

Tudo isto seria cómico e divertido se não fosse trágico, pois estamos a falar de Portugal, o nosso país, a pátria que amamos. Será que ninguém na geringonça diz a Costa e a Centeno que até na cozinha é preciso alguma competência? No mínimo deve-se saber polir metais! 

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

A SABEDORIA DO PARVO

 O relógio já há muito ultrapassara as 19 horas, mas a praia estava cheia de gente a saborear um pôr-de-sol delicado e deslumbrante. Três amigos caminham ao longo do mar. Já decidiram que não voltam para a água embora os 24º sejam uma provocação… Trocam piadas, provocações, frases espirituosas à espera que a conversa pegue fogo.
Filosoficamente cada um costuma falar de uma realidade que lhe é próxima à espera que os outros entrem no jogo.
A conversa seguia agradável e ligeira, algures entre a procura da Felicidade e a Sabedoria humana, quando resolvi provocá-los:
- Sabem, o Miguel Esteves Cardoso costumava dizer que para se ser feliz é preciso ser-se um bocado parvo!
  Ela acrescentou em forma de resposta:
- Só um bocadinho?!
- Sim, só um bocadinho, porque se excedermos a parvoíce conveniente, passamos a parvalhões e depois aparece alguém a dar-nos notícia da figura que estamos a fazer e lá se vai a felicidade.   
  Ela voltou à carga:
- O melhor é fingirmo-nos de parvos?        
Depois dele ter dado uma sonora gargalhada, retorqui:
- Isso é batota, não vale! Tu sabes que estás a fingir. Não ignoras os factos, fazes é de conta que não os conheces. No entanto, já somaste dois mais dois, já avaliaste comportamentos, já te fizestes as perguntas incómodas que se impunham e viste a escuridão encobrir a luz.

Foi então que ele resolveu entrar na conversa.
- Não conseguimos ser só “um bocadinho parvos”!
- Nem nos tornar parvos! – Acrescentou ela.
Pois não! – Conclui. – A parvoíce sábia é uma espécie de descanso que damos à mente; uma nota de crédito que passamos às falhas humanas de cada dia. Mais dia menos dia também vamos precisar de um empréstimo com spread igual.
Por momentos voltámos a ouvir o mar, o som das bolas de borracha nas raquetes de madeira, o chapinhar de duas crianças que corriam perto de nós.
- O vento está a ficar mais fresco! – Disse ela!
Não estava nada, mas todos concordámos convenientemente. Estávamos já a exercitar esse “novo” modo de ser feliz ou pensávamos apenas como era pequena a nossa nota de crédito?

Gabriel Vilas Boas

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

O PRECONCEITO QUE HÁ EM NÓS

Einstein dizia que era mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito. E quem é vítima de um qualquer preconceito entende perfeitamente este lamento do célebre cientista.
O preconceito é uma espécie de vírus cultural que nasce connosco, fruto do caldo civilizacional em que somos gerados. Ou tratamos de o combater com inteligência ou ele consome-nos a alma em lume brando.
Muitos de nós jamais admitirão qualquer atitude preconceituosa. A sua definição de preconceito é, no entanto, muito curta e não vai além da cor de pele. O problema do preconceito é ser uma doença insidiosa que se instala no nosso disco rígido e muda as configurações com que vemos e avaliamos os outros.
Ele revela-se quando falamos do sotaque do aldeão, quando menosprezamos a ideologia política daqueles que defendem outra visão da sociedade, no modo como ridicularizamos a preferência clubísticas daqueles que se desabituaram de ganhar, no desprezo com que nos referimos a alguém menos letrado ou no riso escarninho com que comentamos o modo de vestir da outra… Os exemplos são variados e abundantes.

Por que somos tão preconceituosos? A principal razão é a ignorância. A nossa pretensa superioridade moral, ética ou cultural resulta da soberba falta de conhecimento das razões que levam os outros a ser diferentes. A isto acresce a arrogância de pensar que somos melhores, só porque somos maioritários ou mais endinheirados ou mais cultos. Toda a maioria como toda a riqueza ou sabedoria é relativa. Verificamos isso quando viajamos, quando as circunstâncias nos colocam “do outro lado” ou então nos apaixonamos por alguém que personifica tudo aquilo criticámos ou ridicularizámos.
O preconceito é um modo cruel de magoarmos o outro. Quando o fazemos reiterada e conscientemente transforma-se em maldade.
Nunca é tarde para abrimos mão dos nossos preconceitos. Observar aquele que é diferente apenas como alguém que é diferente e deixá-lo Ser, à sua maneira, sem o constranger, sem o humilhar.
Assumir a nossa verdade; agir de acordo com os valores da vida, isto é, respeitando a diferença. Não porque é bonito ou nos traz vantagem moral, mas apenas porque a dignidade dos outros é tão importante como a nossa.

Gabriel Vilas Boas

terça-feira, 16 de agosto de 2016

CAN´T HELP FALLING IN LOVE, Elvis Presley


Can´t help falling in love foi um dos maiores êxitos do rei Elvis Presley. 
O maior fenómeno da música norte-americano do século XX tinha um dom especial para as canções de amor.
Elvis conseguia como ninguém misturar a alegria, a força e a adrenalina do rock libertário dos loucos anos 60 à sensibilidade intemporal das canções de amor. A sua voz tanto transmitia a loucura e a ousadia juvenil como a poesia doce das belas histórias de amor.
Elvis tinha uma voz e uma presença hipnotizadoras e certas canções, como Can’t help falling in love, ajudavam a expandir a sua aura de grande sedutor e conquistador.

A letra desta arrebatadora música baseia-se num poema francês do século XVIII e mostra um cantor completamente dominado pelo amor, incapaz de contrair o seu destino.
Em toda a música, a voz de Elvis deixa perceber a beleza, a doçura, o prazer que existe sempre que duas pessoas se apaixonam. A música recria essa atmosfera de concórdia, paz, amor como se de um ideal de felicidade se tratasse.
O poema começa para aludir à dicotomia tolo/sensato para lembrar o que muitos pensam do Amor: uma tolice ou até uma insensatez. No entanto, a força do Amor, da Paixão costuma ter o vigor de um rio, de um destino, de uma inevitabilidade, por mais esforço que façamos, por mais racionalidade que ponhamos nas nossas ações há sempre um (ou vários momentos) em que somos impotentes perante a sua força. E mesmo quando ele nos magoa ou nos trai, a devastação que causa é a prova do seu poder, da sua importância para cada um de nós.
Apesar de todos os emboras, a sensatez sem um pouco de loucura, de vez em quando, é uma tremenda tolice.
Gabriel Vilas Boas

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

COM AS MULHERES ESTÁS SEMPRE A PERDER


É assustador o número de coisas que as mulheres fazem mulher do que os homens (em muitos casos, basta-lhes só fazer). Enumerá-las seria fastidioso, humilhante e corria-se o perigo de aparecer alguma a acrescentar mais uma parcela à lista. Felizmente os linguistas inventaram uma palavrinha de quatro letras que resolve a questão em menos de dois segundos.
É verdade que muitos homens ficam a dever às suas esposas muito daquilo que são. São elas que lhes revelam a virtude da paciência e lhes mostram a importância da humanidade nos negócios; através delas descobrem a beleza do amor e a alegria da paternidade.
Entretanto e por causa delas, os homens fazem coisas admiráveis, ultrapassam os seus limites vezes sem conta, inventa, constroem, descobrem...

Os homens evoluem imenso para impressionarem as mulheres, embora não as deslumbrem por aí além, porque aquilo que elas mais admiram mede-se pouco em quantidade e raramente tem valor comercial.
Por mais valiosa e relevante que seja a conquista de um homem, ela fica sempre aquém da grandiosidade de um valor ou da beleza de um sentimento.
Nas relações humanas, as coisas tangíveis preenchem-nos bem menos que a força dos sentimentos. Por isso, o homem está sempre em débito. Trabalha imenso para aquilo a que ele próprio dá menos valor, esforça-se muitíssimo para seduzir uma mulher em vez de se tornar ele mesmo objeto de admiração.
Entretanto a mulher vai aproveitando para exercitar uma das suas especialidades: fazer muito com pouco. Com pouco esforço, faz um homem gastar muito dinheiro! Tanto que às vezes só dá para pagar em prestações.
No entanto, nem nessa altura o homem consegue mudar a sua condição de devedor… pagador e sofredor! É uma espécie de sina masculina: muitos homens devem às suas mulheres tudo aquilo que são; muitos mais devem às suas mulheres tudo aquilo que devem!

Gabriel Vilas Boas 

sábado, 13 de agosto de 2016

NO INVERNO É PORQUE CHOVE, NO VERÃO É PORQUE FAZ SOL


Portugal não é um país de catástrofes naturais. Terramotos, tsunamis, tornados, meses a fio sem chover, inundações frequentes são fenómenos que não acontecem em Portugal. Apesar disso, não há um ano em os jornais e as televisões não noticiem uma qualquer catástrofe, que deu cabo de não sei quantos hectares de floresta ou desalojou centenas de pessoas. No inverno é porque chove, no verão é porque faz calor.
Não chove intensamente durante muito tempo, nem dura uma semana o calor africano, mesmo assim o país não resiste a uma calamidade sazonal.

É verdade que as calamidades acontecem, mas em Portugal surgem com muita facilidade.
A capacidade de resposta da protecção civil, dos bombeiros, das autoridades policiais é muitas vezes insuficiente. Deve soar muito mal ás centenas de famílias desalojadas ou aos agricultores que perderam campos e animais ouvir dizer que todos foram excepcionais no combate ao fogo ou às inundações mas não se conseguiu evitar a calamidade.
Das duas três: ou não são assim tão bons ou qualquer tempestade de água ou fogo nos derrota ou as circunstâncias que construímos nos deixam irremediavelmente nas mãos da sorte.

Há uns anos havia umas almas inocentes que tinham dúvidas sobre a origem criminosa dos fogos até que um fogo acendeu e reacendeu às quatro da madrugada ao pé da porta.
Há ainda muita gente que acha que na Madeira, o incêndio chegou ao centro do Funchal só por causa do vento como achou que há alguns anos houve inundações na baixa funchalense por causa de três horas de chuva furiosa. Não foi.
O ordenamento do território é tão mau que garante, à partida, 30% de taxa de sucesso, a qualquer incêndio. Depois os meios são escassos. Faça sol ou faça chuva, faltam bombeiros, autotanques, apoio de retaguarda. Adianta pouco que os bombeiros trabalhem até à exaustão se não têm quem os renda. O fogo nem precisa de ser intenso para os vencer, precisa é de quem o ateie consecutivamente em vários sítios mais ou menos distantes entre si.

Agora muitos falam de prevenção! É bonito e cai bem, mas sabem quanto custa e como se faz? Não é pasar umas multas, estilo ASAE, a quem não limpa as matas que a prevenção se faz. Custa dinheiro, muito dinheiro; exige tempo, algum tempo; e paciência para aceitar algumas derrotas durante alguns anos.
Nós próximos anos podemos almejar "perder melhor" e isso já será uma vitória.
Gabriel Vilas Boas 

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

UM PASSEIO À BEIRA-MAR


Quando a temperatura baixar um pouco, meta no carro uma bicicleta e vá até Espinho. Entretanto desafie um amigo ou uma amiga (que também não é mal pensado) para um longo passeio de bicicleta de Espinho até ao Porto, em cima do belíssimo passadiço que percorre as dunas das praias de Espinho e Gaia, até desembocar no magnífico cais de Gaia.
Em ritmo de passeio, aprecie a beleza do Atlântico espreguiçando-se ao sol no comprido areal enquanto os músculos se vão adaptando lentamente ao esforço que os quilómetros, que separam as duas cidades, exigem.

Entre o prazer da conversa, o som rebelde das ondas batendo nas rochas na praia de Miramar, o casario, ora urbano ora rural, os restaurantes de praia ou as esplanadas espalhadas pelo percurso, faça uma paragem e convide o parceiro para uma paragem estratégica, para saborear um mojito ou uma margarita, porque um dia não são dias. 



Segue-se viagem, que a marina de Gaia espera-nos para um almoço com vista privilegiada para o magnético casario multicolor da Ribeira.  Depois de três horas a pedalar, talvez não haja forças para grandes correrias pela cidade portuense, mas há, de certeza, disposição para uma visita às famosas caves de vinho do Porto e um tour de barco pelo rio Douro.


Ao final da tarde, talvez as pernas e o corpo já tenha recuperado do esforço matinal e possa subir pausadamente até à zona dos Clérigos para ver a celebérrima Lello, antes de um lanche na vizinha Galeria Paris. Também podemos optar por uma incursão na rua Miguel Bombarda, onde a arte moderna espreita em cada galeria e deixar a baixa para a noite.


Entretanto, é bom dar uma vista de olhos à espantosa Estação de São Bento, a fim de admirar os seus belos painéis de azulejo e anotar o último comboio que nos deixe em Espinho. É bom não esquecer que lá deixámos o carro, mas se tivermos muito cansados, o melhor é deixar a viagem para o dia seguinte… 
O Porto tem um lindo despertar. 

Gabriel Vilas Boas

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

SUBIR NA VIDA



















“-Tiago, subimos na vida. Tu chegaste a ministro e eu ganhei uma medalha nos Jogos Olímpicos!”Telma Monteiro

A familiaridade descomplexada com que Telma Monteiro se dirigiu ao ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues, deixa transparecer a cumplicidade que existe entre estes dois jovens /adultos talentosos, que atingiram patamares elevados na vida social e profissional, graças ao talento, dedicação e esforço.
Seguiram a via indicada, acreditando nas suas potencialidades, investindo na sua formação e mostrando talento, atingiram o topo ainda jovens.
Foi este o percurso e o futuro que a geração que fez o 25 de abril sonhou para os seus filhos. Também por isso o paradigma educacional mudou nas últimas quatro décadas: um brutal investimento em Educação fez com que centenas de milhares de portugueses obtivessem licenciaturas, mestrados e doutoramentos. 

Os pais achavam imprescindível que o filho tivesse uma licenciatura para obter um bom emprego, para “subir na vida”, triunfar.
A partir de certa altura, começaram a perceber que, mesmo licenciado, o filho não se empregava enquanto o dos vizinhos, que não tinha estudos, mas foi para eletricista, ficou relativamente bem na vida.



Daqui retiro algumas lições.
“Subir na vida” não é apenas ganhar mais dinheiro e ter uma excelente conta bancária. Essa é uma visão redutora, minimalista e até algo tacanha. “Subir na vida” é elevar o nosso nível económico, social, pessoal e cultural. Provavelmente, Telma Monteiro e Tiago Rodrigues ganham hoje o mesmo que há um ano, mas sentem que “subiram na vida”, porque as suas vidas melhoraram noutras dimensões.
 Quem investe nas suas qualificações sobe sempre na vida, ainda que a conta bancária possa demorar uns anos a engordar. Quem investe corretamente na melhoria das suas qualidades rapidamente percebe que o dinheiro é apenas mais uma componente da sua realização e, por vezes, não a mais importante.

Outra lição que retiro é o fraco aproveitamento que fazemos das pessoas que formamos. Alemães, franceses, ingleses vêm cá "roubar" os nossos enfermeiros, informáticos, gestores e médicos, porque a muitos deles não conseguimos sequer propor emprego ou quando o fazemos a nossa proposta não atinge 40% da oferta salarial que recebem do estrangeiro. 
Não podemos pagar dois/três mil euros líquidos a um jovem licenciado? Talvez seja verdade, mas podemos certamente empregá-lo e desafiá-lo a fazer crescer a empresa de maneira a que o seu salário possa crescer gradualmente e outros jovens qualificados possam ser contratados.

A terceira lição é sobre a mentalidade. A satisfação pessoal e profissional não deve estar apenas ligada ao salário. Prazer em trabalhar junto da família, garantia de progresso e qualidade de vida, perspetivas de uma melhoria salarial também ajudam a “subir na vida” sem ser preciso entrar num avião.

Gabriel Vilas Boas

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

DOIS ANJOS ÀS PORTAS DO INFERNO


No domingo passado escapei, por pouco, a uma situação angustiante, potencialmente perigosa, e que me deixou muito revoltado.
Pouco depois do almoço, seguia descontraidamente para Aveiro, quando uma simples aviso nos painéis de informação da A29 me deixou sobressaltado: devia sair, na última saída antes da A25, pois a autoestrada estava cortada devido a incêndio. 
Quando cheguei à saída indicada, encontrei uns pinos na autoestrada a indicar o desvio, mas nenhum agente policial a impedir o meu avanço nem qualquer viatura da concessionária da autoestrada. Estranhei, mas lá segui pela  N109 até Aveiro, onde passei a tarde e à noite estive assistir à Supertaça de Futebol.

Entretanto, através de alguns amigos que chegaram muito para além do previsto a Aveiro, fui-me apercebendo que centenas de pessoas ficaram presas na A1 (sobretudo) e na A29 (muito menos), cercadas pelo perigo das chamas, pelo calor insuportável – mais de 40 graus - sem nenhuma ajuda da Brisa, entre o pânico e o sufoco.
Em conversa com alguns amigos, vários falaram-me de um casal que distribuía garrafões e garrafas de água pelos automobilistas e passageiros à beira do colapso físico na principal autoestrada do país. Todos louvaram e engrandeceram atitude humanitária daquele casal, mas também comentávamos o perigo em que aquelas pessoas estiveram durante mais de 300 minutos. 
Não apenas o perigo da desidratação, mas também a exposição à ameaça do incêndio. Como é que as autoridades policiais não criar uma válvula temporal de segurança de maneira a tirar aquelas centenas de carros do troço que queriam cortar? Se o fogo saísse fora de controlo dos bombeiros, como fugiriam aquelas centenas de pessoas exaustas, sem grandes pontos de fuga e com autênticas bombas relógio entre mãos?

No meu entender, a Brisa e a Brigada de Trânsito não falharam apenas na falta de auxílio humanitário às pessoas expostas ao calor infernal, mas também em terem exposto toda aquela gente ao perigo, porque do pânico não se livraram elas.
Sobre o casal que passou a toda a tarde de domingo a levar água, calma e esperança àquele inferno que se instalou na A1, há muita gente que jamais esquecerá o gesto tão tocante e sublime ele foi.

Gabriel Vilas Boas