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sexta-feira, 8 de abril de 2016

DA ARTE, DA PINTURA, DE BOTTICELLI E DE MUSEUS IMPERDÍVEIS

 O Nascimento de Vénus, têmpera sobre tela, 1478, Galleria degli Uffizi

Um vento suave de Primavera emoldurava Florença e ensinava o caminho para os Uffizi. As horas decorriam e tudo se preparava para o encontro mais aguardado por mim. A Galleria estava lá, convidativa, orgulhosa do seu traço Vasariano e dona de preciosas provas do talento e génio artístico do Homem. Sobranceira ao Arno, trocando olhares constantes com a Ponte Vecchio, esta Galleria incontornável em Florença e no Mundo deve a sua existência e a maioria do seu acervo a Anna Maria Luisa de Médici, última herdeira daquela dinastia.

Vista para o Arno a partir da Galleria degli Uffizi
Mulher de visão, compreendeu desde cedo a importância de Florença como cidade fundamental do Grand Tour, já muito praticado pelas elites nobres mundiais como parte integrante da sua formação. O legado de Anna Maria Luísa à cidade, aos florentinos e aos turistas veio contribuir mais ainda para a integração de Florença nos roteiros turísticos culturais italianos e hoje a cidade recebe, em média, seis milhões de turistas anuais. Todos e cada um buscam Florença por um motivo especial. O acervo deste museu é com toda a certeza, um deles. Trabalhos de Giotto, Piero della Francesca, Fra Angelico, Fillippo Lippi, Corregio, Leonardo da Vinci, Rafael, Miguel Ângelo, Caravaggio desfilam perante nós e deliciam-nos. O Corridoio Vasariano de 1565 e que liga o edifício degli Uffizi com o Palazzo Vecchio e com o Palazzo Pitti,alberga uma importante coleção de pintura setecentista e a Collezione degli Autoritratti.
Percorrer este espaço exige preparação física e determinação adequadas; grande dose de concentração também se espera dos visitantes e sobretudo uma enorme força interior. A dimensão do Belo é de tal ordem que os mais incautos ou os mais sensíveis não conseguem evitar chorrilhos de emoções indisfarçáveis… A Sala Botticelli, de que vos quero falar hoje, é particularmente impressionante por isso. Ninguém lhe fica indiferente. A Allegoria della Primavera e Nascita di Venere estão lá, aguardam-nos imponentes, falam connosco, invadem-nos o olhar, cativam-nos pela dimensão, agradam-nos pelo registo da cor, em gradação discreta e paleta suave.

Entrar ali, naquele dia emoldurado de um vento suave primaveril foi emoção única que irei sempre relembrar. Perfumes singelos emanavam de todas as flores, num claro exercício artístico de representação pura da Natureza, tão cara aos renascentistas; perfiladas em tapete bordado sobre as telas gigantes e avassaladoras de Botticelli, as flores também são personagens principais. De entre elas, uma sobressai, a Rosa. Segundo a mitologia clássica, a Rosa, “… cuja fragância é símbolo do amor e cujos espinhos simbolizam a dor que este pode provocar, é a flor sagrada de Vénus e foi criada ao mesmo tempo que a Deusa…”.Tudo isto, numa conjugação harmoniosa de tons suaves, discretos como a própria Vénus, símbolo do amor puro e inocente, pela postura retraída, onde tapa o seu corpo com as mãos, representadas aqui na perfeição.
A deusa, no centro da composição, numa explosão contida de beleza infinita aparece ladeada por Zéfiro e a sua companheira, Flora, que conduzem Vénus para a margem onde a espera uma das quatro Horas, espíritos que encarnam as estações. As vestes identificam a Primavera, pejadas de flores lindíssimas que também cobrem o manto que lhe há de tapar a nudez.
Este tema da mitologia, tão caro ao Renascimento, tem no Nascimento de Vénus um dos seus melhores exemplos. Quero muito voltar. Olhar de novo aquela sala, sentir-lhe o perfume, mergulhar os olhos naquele mar de ondas calmas e naïfs, deixar que Zéfiro e a Primavera abram alas a um novo renascer, colorir-me com o manto aconchegante quase Gabbana que a Hora oferece…
 Será que volto? E vocês? Lembrem-se que vos disse que este é um museu imperdível.

Rosa Maria Alves da Fonseca

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