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sexta-feira, 6 de novembro de 2015

TODO O TEMPO DO MUNDO, de Rui Veloso


Esta canção da dupla Rui Veloso/ Carlos Tê está, para mim, emocionalmente ligada aos últimos meses de vida do meu pai. Impossível ouvi-la sem me recordar desses tempos em que fazia longas viagens, aos fins-de-semana, para o ver, para falar com ele, para o ouvir.
Nessa altura tinha “todo o tempo do mundo” para escutar, mas o mundo já tinha virado a ampulheta do tempo pela última vez e restava-me muito pouco dessa preciosidade que se conta em minutos para lhe dizer quanto gostava dele, sobretudo porque o queria fazer com a minha presença, os meus gestos, o meu olhar, todo o meu tempo disponível.
Na verdade, eu já não tinha todo o tempo do mundo para ele, porque o tempo entrara em contagem decrescente. Ambos o sabíamos embora só eu tivesse consciência disso. Uma consciência que me recusei sempre a aceitar. De nada me valeu.

Mas o tempo que temos, quando aqueles que amamos ainda são imortais, é mesmo “todo o tempo do mundo”. E nessa “todo” está o poder de parar os ponteiros do tempo para ouvir “aquela pequena glória” /”aquele pequeno troféu” que têm para partilhar connosco. E nessa partilha está tão amor que as palavras não o conseguem explicar.
Normalmente achamos que tudo aquilo que fazemos é tão importante que se pararmos, o mundo à volta acaba. Mas não acaba. O que termina é a esperança dos velhos e dos novos em que queiramos fazer parte da equipa deles. Falarão, protestarão, chamarão a nossa distraída atenção até desistirem.
O tempo não para nunca, mas o «nosso» mundo acaba. Acaba quando um dos nossos adoece ou se vai embora de vez. É desnecessária uma lição tão dura para perceber que as nossas preocupações e ambições são tão relativas e pequeninas.

A minha experiência é semelhante à de muitos milhares de pessoas, mas é preciso torná-la cada vez mais rara. Quando o nosso mundo é feito de todo o tempo, não podemos dizer “não tenho tempo para isso! A tua história é pequena e insignificante”. A nossa disponibilidade é também um modo de afirmar a nossa personalidade. Por isso, “podes vir a qualquer hora / cá estarei para te ouvir / O que tenho para fazer / posso fazer a seguir”. E quando o tempo do meu mundo acabar, não quero lamentações, quero apenas ouvir ou dizer “Muito obrigado!”.
Gabriel Vilas Boas


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