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quarta-feira, 1 de julho de 2015

CASTELO DE CHAMBORD NO LOIRE


Nunca à humanidade fora dado observar um telhado de castelo tão espantoso: turrículas afuniladas, chaminés e lucarnas debruadas a mármore emprestavam ao edifício, todo ele pompa e esplendor, a aparência de uma emaranhada floresta de pedra, cuja silhueta bizarra se recortava no céu, contrastando com a paisagem primitiva da Sologne. Em toda a parte desabrochava uma plenitude de flores em pedra e, pelo meio, ninfas, faunos e cupidos alados rodopiavam como bacantes.

Em 1547, o rei Francisco I (verdadeiro percursor do absolutismo francês) viu concluído o seu castelo de sonho, a que mais tarde o escritor Bourdeille chamou “uma das maravilhas do mundo”.
Como nenhum outro castelo do Loire, Chambord foi a expressão, em pedra, de uma vontade férrea de autoafirmação. O gigantesco monumento arquitetónico, cujas fachadas ainda se espelham na água dos canais artificiais, era outrora considerado a mais respeitável imagem da realeza.
Contrariando a vontade do arquiteto, Francisco I decidiu instalar o seu castelo de sonho numa zona pantanosa na orla da Sologne, região rica em caça e florestas. Nesse local, onde foram precisos efetuar penosos trabalhos de secagem, o monarca pretendia erguer algo radicalmente novo, ainda mais grandioso e impressionante do que o castelo de Blois e Amboise que provinham dos seus antecessores.

Quanto à identidade do genial criador do Castelo, tudo o que se pode dizer é especular. É provável que o rei Francisco I tenha escolhido o arquiteto renascentista italiano Domenico Cortona. Também Leonardo Da Vinci, que viveu os últimos anos da sua vida em Amboise a convite de Francisco I, deve ter igualmente participado nos projetos.   
Maciças torres circulares encimadas por telhados cónicos, em ardósia, conferem a este exemplar da arquitetura francesa do século XVI a aparência de uma fortaleza medieval.
No entanto, o carácter defensivo do castelo não passa de uma alusão irónica, atendendo às paredes fragmentadas por pilares lisos e às janelas altas segundo o estilo italiano. O objetivo era celebrar, de forma impressiva, o esplendor do poder.

A verdadeira inovação esteve na planta: em forma de cruz grega, do dogon (torre de menagem), com três andares, na medida em que esta configuração fora apenas usada, até aí, em edifícios de arte sacra.
No ponto de interseção dos corredores que definem o traçado, os construtores colocaram uma escada em espiral, provavelmente concebida por Leonardo Da Vinci, em que dois lances se entrançam de forma requintada. Este primor do génio da engenharia permitia aos visitantes do castelo subir e descer escadas sem que os seus caminhos se cruzassem.
Mal se tinham concluído as obras de edificação do corpo central, já Francisco I conseguia convencer o seu maior adversário, o imperador Carlos V, a fazer-lhe uma visita. O rei de França que havia duas décadas se candidatara infrutiferamente ao trono imperial e na sequência de uma ultrajante derrota em Pavia, em 1525, fora prisioneiro de Carlos V, durante algum tempo, recebeu o imperador pomposamente, com jovens donzelas vestidas de ninfas da floresta a semear de flores o percurso do soberano. Carlos V ficou impressionado e viu em Chambord a “súmula do que o talento humano é capaz de realizar”.

Se os sucessores de Francisco I não souberam tirar grande partido do Castelo, já Luis XIV viu em Chambord um local apropriado para representar eficazmente o esplendor do seu poderio como “rei-Sol”. Desabitado desde o século XVIII, Chambord foi extensamente pilhado durante a revolução francesa e, na qualidade de “massa gigantesca de peças inúteis”, quase transformado numa pedreira.
Nos dias de hoje, só um número escasso de salas voltaram a exibir um mobiliário e ornamentos murais que, na sua maioria, provêm dos acervos museológicos, pelo que não transmitem uma imagem genuína da vida na corte de Francisco I. O vasto parque, à volta do qual o estado francês mandou levantar um muro alto, voltou a servir de coutada de caça, mas apenas para altas individualidades convidadas pelo presidente da República Francesa.
Felizmente, em 1981, a UNESCO decidiu promover o Castelo de Chambord, no Loire, a Património da Humanidade. O maior castelo do Loire, com 154 metros de comprimento por 117 metros de largura, tem 440 salas e tantos fogões de sala como dias do ano. Classificado como uma obra-prima do renascimento francês, tem na escada de caracol dupla uma proeza da engenharia ainda hoje é admirada por todos.
Ir ao loire e não ver o Castelo de Chambord é um pouco como ir a Roma e não ver o Papa.
  


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