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terça-feira, 27 de janeiro de 2015

FELIZMENTE HÁ LUAR, de Luís Sttau Monteiro







No final dos anos cinquenta do século passado desvaneceram as últimas esperanças dos portugueses de terminar com a ditadura de Oliveira Salazar e pôr fim à censura, à falta de liberdade de expressão e ao definhamento civilizacional a que Portugal estava votado. Humberto Delgado, a grande esperança popular dum novo Portugal, fora indecentemente derrotado nas fraudulentas eleições presidenciais de 1958 e daí os portugueses tiraram uma importante mensagem: o longo inverno da opressão ia continuar.
Restava a denúncia da situação, especialmente através da literatura. Foi o que fez Luís Sttau Monteiro através da extraordinária peça de 1960 “Felizmente Há Luar”, cuja encenação foi, obviamente, proibida pela censura do regime salazarista.


Muito influenciado pelo teatro épico de Bertholt Brecht que se debruça sobre a constante luta do Homem para mudar a sociedade, Sttau Monteiro cria um texto dramático que relata uma tentativa frustrada de uma revolta liberal, em 1817, liberada por Gomes Freire de Andrade. Recriada em dois atos, a sequência de factos históricos ocorridos em Outubro desse mesmo ano, revela que o regime do marechal Beresford, apoiado pela Igreja, conduziu ao cárcere e ao enforcamento Gomes Freire de Andrade, no forte de São Julião da Barra, causando grande consternação entre os seus amigos e no povo, que via Gomes Freire de Andrade um homem íntegro e com valores.
Como era normal no teatro épico, Sttau Monteiro usou a técnica da distanciação histórica e o realismo, ou seja, procurou um facto histórico passado e comparou-o com a sua realidade, que queria denunciar. O objetivo era que o público (a sociedade) tomasse consciência dessa realidade e a partir daí partisse para a acção, ou seja, para a mudança.



Sttau Monteiro queria, claramente, denunciar repressão política injusta e as perseguições de que os cidadãos do Portugal da década de 60 sofriam. A peça era, sem sombra de dúvida, uma oposição política ao regime então em vigor e um incentivo à revolta. 
O dramaturgo trabalha muito bem as personagens, que possuem uma densidade psicológica e simbólica notórias Podemos agrupá-las em quatro grupos, tendo em conta as suas posições: as personagens do poder (D. Miguel Forjaz, marechal Beresford, Principal de Sousa), os delatores (Morais Sarmento, Andrade Corvo, Vicente), os representantes do povo (Manuel, Rita, antigo soldado, Vicente), as personagens “individuais”, ou seja, que se representavam a elas próprias (General Gomes Freire de Almeida, Matilde de Melo, António de Sousa Falcão, Frei Diogo de Melo).

Destacaria uma em cada grupo. Assim, D. Miguel Forjaz é um conservador, retrógrado, medroso, corrupto e mercenário que olha para o liberalismo como um caos. Ele é o falso demagogo que advoga o tão salazarista “pátria, Deus, família” e se julga superior ao seu semelhante, pois afirma “Um mundo em que não se distinga a olho nu entre um nobre e um popular é um mundo em que eu não desejo viver.”
Vicente é um membro do povo que desrespeita e despreza os seus. Ele é o falso moralista, traidor e calculista que vai contra o General. É um homem inteligente e ambicioso, mas põe essas virtudes ao serviço do mais puro egoísmo e materialismo. 
Frei Diogo de Melo é um homem bom. Cheio de compaixão, conforta Matilde e defende o General, corroborando a sua inocência. Ele representa o lado bom da Igreja.
Como já referi, esta peça está cheia de simbolismo. Na mensagem que pretende veicular, na caracterização das personagens, na escolha de alguns objetos. Por exemplo, a moeda representa a miséria do povo que vive de esmola e a traição da Igreja aos seus ideais (Judas vendeu Cristo por trinta moedas). Há também a fogueira, que para D. Miguel é símbolo de purificação e de limpeza, mas que devemos ligar também à Inquisição e às suas tenebrosas fogueiras. Temos também a saia verde a sugerir a pureza, a inocência, a esperança numa liberdade próxima.


No texto de Sttau Monteiro, tudo é pensado ao mais ínfimo pormenor. Por isso as didascálias assumem um papel preponderante. Além das normais, encontramos nesta peça as chamadas didascálias marginais, típicas do teatro de Brecht que corroboram o distanciamento histórico. É lá que o encenador vai buscar as informações que permitem fazer o contraste luz/sombra da cena. A falta de luz no cenário (escuridão total) mostra o clima da época – o regime opressor, a ignorância do povo, a obscuridade. A intensa luminosidade no Manuel (primeira cena) corrobora a indicação inicial “Manuel, o mais consciente dos populares”. 
Deixei, propositadamente, para o fim o título. Para D. Miguel, “Felizmente há luar” para se verem melhor as execuções e para que o medo conseguido seja maior a abranja mais pessoas, ou seja, a lua representa a monotonia, falta de liberdade de ação e expressão. Tal como a lua, os regimes déspotas só sobrevivem se os mais fortes estiverem controlados. Brilham com a luz dos outros. Para Matilde, o luar permite que mais gente veja a fogueira, mais gente vença o medo, mais gente se revolte e se una para mudar.

Gabriel Vilas Boas

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