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quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

DA ARTE, DA PINTURA, DE AUGUSTE RENOIR EM ORSAY


“Tratar um tema pelas suas cores e não por si mesmo é o que distingue os impressionistas dos outros pintores.”  Georges Riviére,1 877


Museu D’Orsay, Paris


A Estação ferroviária de Orsay,de uma beleza imensa,haveria de ser classificada Monumento Histórico em 1978.
Em 1977,o presidente Giscard D’Estaing toma a feliz iniciativa da criação do Museu D’Orsay naquele espaço arquitetónico oitocentista,que haveria de ser inaugurado por Mitterrand a 1 de Dezembro de 1986.
Este é um dos museus imperdíveis da cidade de Paris.Em primeiro lugar,pelo facto de ser uma jóia da arquitetura parisiense.Depois,pela magnífica coleção impressionista e pós-impressionista que alberga.A pintura, a escultura, a fotografia e até a arquitetura estão ali soberbamente representadas.As artes decorativas também marcam presença nas salas dedicadas à Art Nouveau e ao movimento Arts& Crafts.
Na pintura,obras de Ingres,Delacroix,Millet,Corot,Degas,Cézanne,Gauguin ou Courbet enriquecem e embelezam aquele espaço de exceção onde se transpira cultura.
Como já perceberam, é de  Pierre- Auguste Renoir, natural de Limoges, um dos extraordinários artistas cujas obras também ali podem ser apreciadas,que vos falo hoje.A voluptuosidade da cor transcende todo o seu trabalho.Desde cedo,as suas idas à floresta de Fointainebleu para pintar permitiram-lhe o contacto com a arte de Daubigny,de quem recebe as primeiras influências.Mas é sobretudo Courbet que o fascina e que, a partir de 1866,vai marcar toda a sua obra.
Pintou paisagens,que foi alternando sempre com retratos e quadros de figuras.
 Gleyre (crítico de Arte) criticava-o dizendo que Renoir apenas ”pintava para se divertir”.Renoir em nada se incomodava e respondia “Naturalmente…se pintar não me divertisse,nunca teria pintado”.Acrescentava “A terra,paraíso dos deuses,isto é o que eu quero pintar”.E assim foi.Renoir foi sempre recriando pequenos paraísos,descobrindo a beleza,dando-a a descobrir como ninguém.
Em 1876,pintou várias telas que podemos classificar de puramente impressionistas e que estão espalhadas por diferentes museus do mundo,revelando uma espécie de sentido calmo e tranquilo dos prazeres da vida, num misto de sensualidade apuradíssima e sensibilidades únicas que as inundam.
Desse período é La Liseuse; aqui podemos observar o olhar puro do pintor sobre a jovem que lê. Os cabelos cor de trigo em desalinho são propositadamente inundados de uma luz  intensa que irradia da janela e emolduram um rosto de uma beleza sem fim. O livro por onde a jovem viaja, recebe fios de luz mais subtis e leva-nos a querer fazer parte daquela aventura misteriosa que a envolve naquele sorriso quase inquieto. Os olhos marotos, quase fechados, contrastam com os lábios desenhados em sorriso. A leitura, sendo um ato de solidão, que nos isola dos outros mas que nos traz prazer sem fim, conhecimento e viagens inimagináveis, é capaz disto. Arranca-nos belos e insondáveis sorrisos em que nos deixamos perder e para onde nos deixamos levar.
Nada se sabe sobre esta jovem modelo. Mas ela continua lá, em Orsay. Indiferente a quem a observa, mergulhada e envolvida pelas palavras que vai desvendando numa leitura atenta, persistente, cadenciada. Os olhares de admiração não a afetam, ela sabe do seu sorriso, conhece o seu efeito, acredita na luz de Renoir. E deixa-se ficar no seu mundo.
Esta liseuse é prova inequívoca do gosto e do prazer que Renoir sentia ao representar este tema, recorrente desde o séc. XVIII e que denota um apreço especial pelo grande Fragonnard.
Eu, que já a observei, lamentavelmente com alguma pressa, entendo que este é, sem dúvida, um dos mais belos sorrisos da História da Arte.
A figura feminina sempre seduziu Renoir, tendo-a representado sucessivamente, em nus completos, ou apenas em rostos que desnudava em sentimento. Como ele dizia “Seja Vénus ou Nini, não se pode conceber nada melhor.”
Ora espreitem!


Renoir,La Liseuse (Jeune Fille lisant un Livre), 1876.  Musée d'Orsay, Paris.


 Rosa Maria Alves da Fonseca

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