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sábado, 13 de dezembro de 2014

WASSILY KANDINSKY


Passam hoje setenta anos sobre a morte do pintor russo Wassily Kandinsky, considerado o fundador da pintura abstrata.
Kandinsky foi efetivamente o primeiro pintor que prescindiu da representação de objetos e temas da natureza de forma programática, o primeiro que entendeu a renúncia à figuração como meio para chegar a uma pintura mais pura.
Embora nem toda a abstração provenha dele, sem o seu precedente teria sido impossível. A sua grande contribuição é ter legitimado a renúncia ao motivo, que sempre fora uma das grandes ambições da pintura moderna desde Picasso e Matisse.

O Cavaleiro Azul, 1903
Muito cedo Kandinsky avança o que será o emblema do mais famoso grupo que criou ao longo da sua carreira. O azul era para ele o símbolo celestial, com o qual este cavaleiro espiritual se equipara ao mito de São Jorge, vencendo o dragão do material. A sua misteriosa presença na paisagem, banhada por uma luz rasante e reveladora, evoca o ambiente das lendas populares alemãs.


A obra de Kandinsky distancia-se tanto da imitação como da decoração. A distribuição da cor no quadro é conduzida por princípios de harmonia e contraste, tal como acontece na música, de maneira que cada elemento desperta uma oculta vibração na alma do espectador.
Kandinsky achava que o artista devia aspirar a reconstruir a “obra de arte total”. Muito influenciado pela ópera de Wagner, o pintor russo desenvolveu o princípio da sinestesia que consiste em definir equivalências entre perceções de ordem diversa – imagens e sons, cheiros e sabores. Kandinsky definiu estes princípios em “Do Espiritual na Arte”, um pequeno tratado em que se definem estas equivalências entre cores e conceitos –  frio, calor, tranquilidade, excitação – que estão na base da pintura.  

Improvisação Sonhada, 1913

A mancha central, contornada a azul e preto, atrai poderosamente o fluxo de cor de todo o quadro, que se dirige para ela mediante um movimento em espiral. Os traços rápidos de cor que salpicam toda a superfície funcionam como «segundas vozes», contraponteando o ritmo dominante.


O rebentar da Primeira Guerra Mundial fá-lo regressar à Moscovo natal, onde a Revolução Bolchevique promove uma das vanguardas artísticas mais ativas e singulares do século XX. Kandinsky continua a pintura nesta fase que irá até 1921, mas o seu foco está noutro lado.  
A fase artística que mais aprecio em Kandinsky situa-se em plena década de vinte, quando o pintor russo regressa à Alemanha para ensinar na Bauhaus. Nesses anos, a obra de Kandinsky disciplina-se. À cor junta-se a geometria e a interação das formas. A sua pintura reflete, então, as várias tendências que coincidem em vários momentos na Bauhaus. No entanto, o sentido último dos seus quadros continua a ser o da atribuição de condições musicais e emotivas à cor.
Diz Kandinsky: «A cor é um meio para exercer uma influência direta sobre a alma. A cor é a tecla, o olho é o martelo moderador; a alma é um piano com mais cordas, e o artista, a mão que, mediante uma determinada tecla, faz vibrar a alma humana

Tensão e Calma, 1924 

Um complexo jogo de sobreposições resolve-se na passagem entre dois círculos, um mais pequeno e outro maior, dispostos sobre o eixo diagonal. A forte tensão direcional reforçada expressivamente por uma seta ao meio do eixo, é compensada com o equilíbrio expansivo da sequência cromática azul celeste-preto-vermelho, que também pode ler-se em termos de temperatura.


Um complexo jogo de sobreposições resolve-se na passagem entre dois círculos, um mais pequeno e outro maior, dispostos sobre o eixo diagonal.
Os dois círculos seriam, então, um vértice frio e outro quente. A clareza compositiva deste tipo de quadrados responde à evolução própria da obra pictórica de Kandinsky.


Os nazis acabaram por afastar Wassily Kandinsky da Alemanha (quatro anos depois de ter adquirido a nacionalidade alemã), acabando este por exilar-se em Paris, nos últimos onze anos de vida.
As últimas obras de Kandinsky afastam-se da geometria da Bauhaus, optando o artista pelas formas orgânicas e biomórficas. Morreu num dia como o de hoje, vendo uma Paris destruída e uma Europa em ruínas, a três dias de completar setenta e oito anos. A Europa reencontraria a paz e a abstração triunfaria no mundo das artes... alguns anos mais tarde.
Gabriel Vilas Boas

Composição VIII, 1923

O círculo aparece nesta época como símbolo de perfeição e pelas suas conotações cósmicas. A vibrante cor dos anos de “O Cavaleiro Azul” torna-se agora mais plana e lisa. A economia e o rigor do reportório formal apuram-se ao máximo.  


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