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quarta-feira, 24 de setembro de 2014

D. PEDRO IV, O HERÓI ROMÂNTICO



Num dia de outono como o de hoje, no mesmo quarto onde tinha nascido, no Palácio de Queluz, falecia D. Pedro IV de Portugal, a poucos dias de completar trinta e seis anos, vítima de tuberculose. 

D. Pedro viveu muito, viveu rápido. Ele é uma das figuras mais importantes da nossa História coletiva e marca o princípio do fim do império português, ainda que nem ele nem os seus pares tivessem plena consciência disso. 

D. Pedro nunca fugiu aos desafios que o destino e as circunstâncias lhe colocaram. Não nasceu para ser rei e muito menos imperador do Brasil, mas a morte prematura do irmão António e as invasões francesas colocaram a coroa em terras de Vera Cruz, onde D. Pedro cresceu e aprendeu a amar um povo que falava português com sotaque. Herdou do pai o amor à liberdade e da mãe a impetuosidade castelhana. Talvez por isso, D. Pedro fosse aquele ser impulsivo e volúvel, capaz de grandes ódios e de grandes amores. Romântico e autoritário, ambicioso e generoso, grosseiro e sedutor, D. Pedro não passava indiferente a ninguém. 



Quando um homem destes assume o comando dum povo e se depara com circunstâncias históricas inesperadas, é mais que certo que o seu nome preencherá largas páginas dos livros de História. 

A sua educação não foi um primor nem seguiu o manual das melhores práticas para quem se preparava para ser monarca do império português em pleno século XIX. No entanto, D. Pedro estava longe de ser o inculto que muitos tiveram a ousadia de escrever. Ao longo dos anos, procurou preencher as lacunas evidentes que tinha, aprimorando os seus conhecimentos e demonstrando um enorme desejo por aprender. D. Pedro gostava imenso de música e sabia tocar uma grande diversidade de instrumentos: piano, flauta, fagote, trombone, clarinete, violão, cravo… Também gostava muito de pintar e desenhar, como de caçar e montar. Homem despretensioso, gostava de fazer trabalhos indicados para serviçais. Dizem que era bom mecânico, torneiro e marceneiro!

O amor à liberdade que herdou do pai não se viu apenas na libertação que fez do Brasil ou no resgate da coroa portuguesa e dos ideiais liberais sequestrados pelo irmão Miguel. Desde cedo D. Pedro se mostrou contra a escravatura. D. Pedro não acreditava em diferenças raciais e muito menos numa presumível inferioridade do negro, como era comum na época. O primeiro imperador do Brasil deixou clara a sua opinião sobre o tema: "Eu sei que o meu sangue é da mesma cor que o dos negros". Completamente avesso à escravidão, pretendeu debater com os deputados uma forma de extingui-la. D. Pedro I foi um governante muito à frente da elite brasileira do seu tempo. Ele afrontou os valores da escravidão, combatendo com vigor o hábito de alguns funcionários públicos de mandar escravos para trabalhar no seu lugar.



No entanto, foi na ação política que D. Pedro melhor exprimiu a sua personalidade e os seus valores. Quando chegou a altura de tomar decisões, não se engasgou, não teve medo nem adiou. Quando o pai o intimou a regressar a Lisboa, a fim de obrigar os brasileiros a regressar à sua condição de colónia, D. Pedro põe-se à frente do exército brasileiro e soltou o famosíssimo grito de Ipiranga – “Liberdade ou Morte”. Talvez tenha sido por ele estar à frente do imenso Brasil que o pai aceitou a descarada independência brasileira a troco duma considerável quantia de dinheiro. Talvez porque, sentindo-se brasileiro, nunca deixou de ser português, regressou para assumir um trono em que só se sentou de passagem, pois projetara deixá-lo à filha e ao irmão, entre quem arquitetou um casamento de conveniência. Infelizmente, D. Miguel não tinha o desprendimento, a honestidade, o idealismo do irmão e por isso não honrou os compromissos assumidos. E D. Pedro teve que libertar Portugal como tinha libertado o Brasil. Como um herói romântico, de espada na mão, desembarcou no Mindelo, resistiu ao cerco do Porto e só parou quando conseguiu repor a filha no trono que era dele. A obra ficara acabada em Évora Monte poucas semanas antes de morrer. Tuberculoso ainda viu a filha assumir oficialmente a coroa, quatro dias antes de falecer, mas já não pôde regressar ao “seu” Brasil, onde o filho esperava a maioridade para assumir efetivamente o poder. 

O Coração de D. Pedro repousa na Igreja da Lapa, no Porto


A vida passara num fósforo, mas D. Pedro deixou o seu traço entre as estrelas. Como um herói romântico amado, odiado, finalmente, amado. Deve ser por isso que os brasileiros pediram a trasladação dos seus restos mortais para o Museu de Ipiranga, S. Paulo e que os portuenses lhe ergueram uma estátua equestre no sítio mais nobre da sua cidade, porque, apesar de ter nascido em Queluz, o seu coração ficou agarrado ao Porto como uma “Lapa”. 

Gabriel Vilas Boas

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