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quarta-feira, 11 de junho de 2014

D. JOÃO III

           
 
Passam hoje 557 anos que D. João III faleceu, em Lisboa, vítima de acidente vascular cerebral ou apoplexia. Para trás ficavam 55 anos de vida e 36 de reinado do 15.º rei português. 


D. João III governou um dos maiores impérios do século XVI, num dos momentos mais importantes da História de Portugal. Portugal tinha territórios em quatro continentes e um império muito disperso. A D. João III era pedido que não ficasse aquém de reis tão marcantes como D. João II ou D. Manuel I. Fruto da sua personalidade assim como das circunstâncias políticas e económicas europeias e mundiais, o filho de D. Manuel I não conseguiu estar plenamente à altura do desafio. 


João III era um rei muito religioso, o que o tornou subserviente ao poder da igreja que tratou de o fazer aceitar a introdução da Inquisição em 1536, quando toda a Europa estava já dominada pelo movimento liderado por Martim Lutero. Esta ligação à ala mais conservadora e radical da Igreja Católica teve consequências sociais e económicas nefastas para o país: muitos mercadores judeus foram obrigados a abandonar Portugal e com eles levaram o dinheiro que financiava um império com muitos gastos para se dar ao luxo de dispensar a bolsa judaica. Essa fuga dos judeus obrigou a coroa a recorrer a empréstimos estrangeiros que sobrecarregaram as finanças nacionais. 

Os defensores de D. João III costumam dizer que era um homem extremamente piedoso e bondoso, mas a o contexto político e económico do século XVI na Europa, onde o Império Otomano cercava Viena e tomava Buda e a Espanha de Carlos V ganhava um poderio económico e político cada vez mais ameaçador, exigiam outro tipo de monarca, que D. João III não soube interpretar. Talvez por isso Alexandre Herculano o tenha classificado como inábil, medíocre e fanático. Talvez seja uma visão demasiado agressiva e até injusta, mas, na verdade, o avô de D. Sebastião era lento na tomada de decisões, gostava de usar a dissimulação quer no relacionamento diplomático quer com os seus súbditos, era muito cioso da sua autoridade e muito prudente.



Estas características pessoais revelaram-se na maneira absolutista e centralizadora como governou, pois em duas décadas apenas convocou as cortes três vezes (1525, 1535 e 1544). Como não era nenhum génio político, militar ou económico, nem a excessiva dependência duma Igreja repressiva lhe trazia a admiração popular e o seu reinado caracterizou-se pela estagnação. 

No entanto, há que reconhecer que as circunstâncias temporais, políticas, económicas e até pessoais foram muito difíceis. Teve de lidar com muitas crises: a financeira (no seu reinado as despesas ordinárias da Coroa incluíam tenças, moradias, benesses pias, ordenados, obras públicas, universidade, obras em Belém e em Tomar, dotes a pagar, a compra do arquipélago do Maluco, socorros às praças do Norte da África, as armadas na Índia, a defesa das costas do Brasil e África, a aquisição de trigo nos anos maus….); a ameaça protestante; o perigo turco; a concorrência francesa e inglesa no império; as crises no Estado da Índia; o peso da vizinhança demasiado forte de Carlos V; a proliferação da peste; os maus anos agrícolas, etc. A isto acresce uma história pessoal horrível: viu morrer os dez filhos de que foi pai e seis dos oito irmãos com quem conviveu. Tão mau que parece mentira.

Ainda que tenha contribuído muito para isso, o reinado de D. João III haveria de ficar marcado pela excelência cultural que produziu. O Renascimento português afirma-se de forma categórica, levando a uma renovação cultural notória. É no seu reinado que vive o grande Luís de Camões e outros grandes vultos da literatura portuguesa como Garcia de Resende, Sá de Miranda, João de Barros. Na náutica surge Pedro Nunes enquanto Garcia da Orta “nascia” para a botânica. Na arquitetura destacava-se Francisco da Holanda. 
D. João III fomentou a criação de muitas bolsas de estudo de portugueses no estrangeiro; fundou o Real Colégio das Artes e Humanidades, em Coimbra, e trouxe a Ordem dos Jesuítas para Portugal, numa decisão em que fica mais uma vez evidente a sua ligação e até submissão à Igreja Católica.
Ficou sepultado no Mosteiro dos Jerónimos.

Gabriel Vilas Boas

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