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quarta-feira, 26 de março de 2014

PONTE DE S. GONÇALO


…é uma artéria vital na ligação entre os núcleos populacionais de Amarante, nas duas margens do Rio Tâmega! Por isso não poderia deixar de a incluir neste trabalho sobre as ruas de Amarante!
A actual Ponte de S. Gonçalo, como é sabido foi um projecto do Arqº e Engº Carlos Amarante, a quem me referi no anterior post!
A iniciativa da sua construção deve-se ao Doutor Caetano José da Rocha e Melo, corregedor da Comarca de Penafiel, que em alguns documentos também aparece designado como Desembargador e até “Menystro” de D. Maria I.
As obras desta ponte iniciaram-se no ano de 1782, e as primeiras pedras foram assentes a 5 de Setembro desse ano!
A construção foi entregue a Francisco Tomás da Mota, da freguesia de Adaufe, termo da cidade e Braga, como aliás consta de uma inscrição gravada no parapeito da ponte, do lado direito de quem vem de S. Gonçalo.
Foi M.e arquitecto desta real obra Francisco Thomás da Motta da Fregª d’Adaufe trº de Cid.e de Braga, pela Rainha D. Maria 1790
Nesta obra trabalharam muitos artífices e mestres de pedreiro, e alguns são identificados na obra “Notícias de alguns artistas que trabalharam em Amarante” da autoria de Albano Sardoeira, nomeadamente o pedreiro Feliciano Costa e os mestres pedreiros Paulo Vidal e António José.
As obras prolongaram-se durante nove anos e a sua inauguração dá-se no ano de 1791!
Neste ano de 1791, a ponte foi completada com, “ …quatro bonitas e artísticas pirâmides e dois adornos em forma de urna eleitoral, em cada meia laranja, à entrada para elas. As meias laranjas ficaram também com um assento circular…”como refere o Dr. Luis Van Zeller Macedo in “ Pequena História de Amarante” -1989.
Diz o mesmo autor que “ Esta notável foi custeada com verbas dadas por todas as Câmaras dos Concelhos vizinhos, com a receita das barcas de passagem, durante os 27 anos em que não houve ponte e com multas aplicadas aos donos dos gados que invadiam os terrenos alheios…”
Esta ponte foi classificada como Monumento Nacional em 1910!

A Ponte Fortificada de Amarante
Ora, esta ponte do Sec.XVIII, vem substituir uma ponte anteriormente existente e que se havia desmoronado a 10 de Fevereiro de 1763. Essa ponte tinha servido Amarante e toda a região entre os séculos XIII e XVIII. Era a antiga ponte fortificada de Amarante, que dispunha de ameias, de uma torre de defesa e de um cruzeiro (Na Igreja de S. Gonçalo, existe um baixo relevo decorativo que a representa).
 Como em qualquer ponte medieval, nesta procedia-se à cobrança da portagem, a favor do donatário do Concelho de Gouveia, o Conde de Redondo. Em 1781 o 12º Conde de Redondo, D. Fernando de Sousa Coutinho levantou obstáculos à demolição da torre da ponte ruida o que atrasou o inicio das obras na ponte do Sec XVIII, possivelmente para salvaguardar o rendimento das portagens!
A referida torre, disporia de três portas de acesso à ponte, uma para quem efectuava pagamento de portagem, uma outra para os moradores de Amarante e moradores do Concelho de Gestaço, que estavam isentos do pagamento da portagem e uma terceira para uso dos donatários( Condes de Redondo) que defronte da ponte dispunham do seu Paço!
É tradição que S. Gonçalo projectou e dirigiu a construção desta ponte, com muitos sacrifícios e alguns milagres à mistura. Daí S. Gonçalo ser muitas vezes “contado pelos autores franceses e italianos entre os arquitectos do Sec.XIII”
Não se compreende que esta ponte, sendo construída por S. Gonçalo, disponha de ameias e de uma torre de defesa, o que nos leva a concluir que desde a sua construção, que deve ter ocorrido entre os anos de 1247 e 1252, a primitiva ponte terá sofrido obras de reconstrução em que lhe acrescentaram as ditas ameias e torre de defesa! O que não é de admirar dadas as largas centenas de anos em que serviu ao fim a que se destinava tendo ruido a 10 de Fevereiro de 1763.
Há autores que colocam a hipótese de esta ponte do Sec. XIII, ter sido uma reconstrução de uma ponte já existente anteriormente, o que não será verdade, a crer nas Inquirições feitas em Amarante em Novembro de 1343 (Reinado de D. Afonso IV) em que uma das testemunhas inquiridas, João Rodrigues afirma:
“…haviam dois casais no dito logo de Marante quando a ponte do dito logo começava de se fazer…”
Como disse atrás, esta ponte ruiu a 10 de Fevereiro de 1763, logo que lhe foi retirado o cruzeiro, ou Senhor da Boa Passagem, a que hoje damos o nome de Senhora da Ponte que ali continua vigilante à travessia do Tâmega! Esta imagem tem a particularidade de ter de um lado Cristo Cruxificado (Senhor da Boa Passagem) e do outro lado, nossa senhora com Cristo descido da Cruz, deitado no seu regaço (Senhora da Ponte)!
São bem conhecidos os sonetos do Abade de Jazente, Paulino Cabral alusivos à derrocada da ponte e ao episódio da retirada do cruzeiro e que transcrevo:
À Ponte de Amarante
“Enquanto sobre a ponte, oh Virgem pura,
A vossa imagem se adorou patente,
De si mesma parece, que pendente
Se sustinha a desfeita architectura.

Ao tempo, ao terramoto, à guerra dura,
Convosco resistiu, venceu valente:
Que a peanha da Mãe do Omnipotente
Não podia deixar de ser segura.

Mas, assim que outras aras vos destina
Dos homens a devota providência,
Geme saudosa, e os mármores inclina:

E vai gritando a rôta corpulência,
no estrondo rouco da total ruína,
que é destroço maior a vossa ausência.”

À ruína da ponte de Amarante
“ Essa que vês, amigo, parte em terra,
Parte no rio, e parte inda pendente,
Foi ponte, que cingiu larga corrente,
E agora nas areias se soterra.

Célebre foi, e qual robusta serra,
Na espádua dura suportou valente
A planta bruta, o tráfego da gente,
E o transito das machinas de guerra.

Na duração os séculos remotos
Venceu de mil enchentes o ameaço,
E susteve o furor dos terramotos

Mas hoje, para aviso, em mapa escasso,
Esses penedos te apresenta rotos.
Contempla um pouco, e volta atrás o passo.”

Nascimento: 1187 – Arriconha (Tagilde, Vizela, Portugal)
Morte: 10 de janeiro de 1259 ou 1262, Amarante, Portugal
Veneração: Igreja Católica
Beatificação: 16 de setembro de 1561
                       10 de julho de 1671 pelo Papa Júlio III.
                       O Papa Clemente X concedeu-lhe missa e ofícios próprios                        em Portugal e na Ordem dos Pregadores.
Atribuições: hábito de frade dominicano
Padroeiro: Amarante, Portugal; São Gonçalo do Amarante (Ceará) e São Gonçalo do Amarante (Rio Grande do Norte), no Brasil, Ibiturana
Polémicas: não foi canonizado, mas é venerado como tal.


No que toca a pontes, ainda não ficamos por aqui e é legítimo perguntar como se faria a travessia do Tâmega antes de 1250.
Há autores que falam da existência anterior de uma ponte romana, mandada construir pelo Imperador Trajano, por volta do ano de 106, e que integrava uma via romana que de Trás-os-Montes, ligaria a Guimarães e Braga.
Assentam a sua convicção num documento suevo, datado de 1 de Janeiro do ano de 572 (Sec. VI), que indica os limites da diocese de Braga e que reza assim, no que à nossa zona interessa:
-“…desde o Douro na foz do Corgo subiam o Monte do Marão até ao Castro que se chama de Vila-Chã e daqui à ponte do Tâmega e pela água deste até ao rio Odres.”
( Per illa aqua de Estola usque in Durio, usque in foze de Corrago et inde ad montem Maroni et inde ad Castro quod dicitur Villa Plana et inde ponte de Tamice et inde per illam aquam usque ad fluvio de Uteros
Este documento refere a existência de uma ponte em território de Amarante, muito anterior à ponte medieval de S. Gonçalo!
Contudo esta ponte romana já não existiria no Sec.XII dado que na Bula do Papa Pascoal II, do ano de 1114, ao descrever os limites da diocese do Porto, em face da diocese de Braga, já referem o lugar da “antiquam pontem de Tamice”, pelo que se poderá concluir que a ponte teria desaparecido e só restava o conhecimento do local da mesma!
Quanto à Nova Ponte, lá chegaremos!
António Aires

2 comentários:

  1. Excelente texto, sobre a Ponte de S. GONÇALO!!! Lindíssimos Sonetos! Gostei muito... Parabéns.

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  2. Como já te disse, Ana, tens de vir a Amarante, para conhecer a cidade. Tu e os teus amigos iam adorar.

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