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terça-feira, 27 de junho de 2017

PEDRINHO SUICIDOU-SE EM PEDRÓGÃO


Certo dia, o jogador brasileiro Romário, referindo-se a Pelé (melhor jogador de futebol de todos os tempos) disse: “O Pelé calado é um poeta!” 
Por esta altura, grande parte dos militantes e simpatizantes do PSD pensam o mesmo de Passos Coelho, depois do seu líder ter dito e desdito que “houve pessoas que se suicidaram por falta de apoio psicológico, na sequência dos trágicos incêndios de Pedrógão”.
O calor até abrandou e Passos não tinha sido chamado à conversa, mas a sua inclinação para só dizer asneira é tanta que não conseguiu deixar de se suicidar. E fê-lo em grande estilo e com péssimo gosto.

Como pode ele falar em suicídios por falta de apoio psicológico sem confirmar essa informação? Como pode ele falar em mais mortes quando o país ainda não sarou as feridas de há dez dias? Que sentiu aquela gente que perdeu tudo, que viu parentes queimados pelas chamas, ao ouvir estas palavras do ex-primeiro ministro? É bom que Passos não se esqueça do lugar que ocupou, pois isso ainda é uma responsabilidade, que ele descura.
Numa altura em que o país assiste com tristeza mas sem surpresa ao jogo do empurra sobre as culpas do incêndio de Pedrógão, aprofundando a desilusão que sente em relação a quem o governa, Passos Coelho bem podia estar calado. Ou então aproveitar o tempo de antena que cabe ao líder do PSD para mostrar solidariedade, acompanhar os seus autarcas aos locais atingidos pelo fogo, a fim de perceber as necessidades daquela gente.

Quando fala em suicídios por falta de apoio psicológico insulta o sofrimento daquela gente, a coragem de muitos bombeiros que combateram para lá do limite das suas forças um fogo descomunal.
Das várias reportagens que se fizeram sobre o incêndio de Pedrógão, retenho uma, onde um autarca do concelho aludiu ao desespero de um bombeiro, que pediu que lhe dessem uma injeção para morrer. Quando Passos proferiu aquelas miseráveis palavras sobre suicídios lembrei-me desse herói sem nome e imaginei o que ele e a família sentiram ao ouvir as palavras de Passos. Provavelmente um grande nojo!


segunda-feira, 26 de junho de 2017

VÃO DESENTERRAR DALÍ


Não é uma ideia surrealista, mas a ordem de um tribunal de Madrid, que determinou a exumação do corpo do genial pintor espanhol, para  esclarecer, definitivamente, se Pilar Abel é ou não sua filha.
Há dez anos que Pilar diz ser descendente de Salvador Dali, mas até agora ninguém lhe tinha dado razão nem maneira de o provar. Hoje, a juíza María Del Mar Crespo decidiu que se desenterraria o que resta de Dalí, para saber se Pilar tem razão ou não.



Aprecio a coragem da juíza, pois sempre achei que um dos direitos inalienáveis do ser humano é Saber Quem É, quem é o seu progenitor, tenha sido ele um cobarde, um péssimo pai ou apenas alguém que nunca soube que teve aquela filha.


Pilar é um oportunista? É possível. Corremos o risco de desfazer o mito, a áurea que cerca o grande Salvador Dalí, quando o desenterrarmos e dermos com um monte desconjuntado de ossos e matéria que nos parecerá repugnante? É provável. Corremos o risco de não ser possível recolher uma prova científica e irrefutável sobre aquilo que procuramos? Não é impossível que tal aconteça. 
Apesar de tudo isto, vale a pena tentar, porque aquela mulher tem o direito de saber, sem margem para dúvidas, quem é o seu pai. Se a ciência lhe dá essa hipótese, a Lei e a sociedade não lho podem negar, apesar de todas as inconveniências e dúvidas.

Em Portugal, tudo é diferente. António Silva Rodrigues, o quinto homem mais rico do país, já faltou a seis testes de paternidade e parece que ninguém o obriga a cumprir com o seu dever perante a justiça. Fernando Pinho Teixeira, um milionário e comendador de Vale de Cambra, com uma fortuna avaliada em 180 milhões de euros, arrastou durante uma década uma querela em tribunal, mesmo sabendo ser o pai, teimando em não reconhecer como filha a atriz Marina Santiago.

Há onze anos, vários investigadores da Universidade de Coimbra viram-lhes retirada, à ultima hora, autorização para exumar o corpo do primeiro rei de Portugal, Dom Afonso Henriques, porque havia o perigo de a ciência desfazer alguns mitos que a História criou. Talvez Dom Afonso Henriques não fosse aquele portento físico que os nossos primeiros livros de História nos contaram, talvez algumas certezas históricas se tornassem dúvidas…

Se a ciência nos permite escrever corretamente a História, seja ela de um povo ou de uma pessoa, ninguém deve ter o direito de o impedir, ainda que seja muito rico, ainda que a verdade seja pouco glamourosa e muito inconveniente.

GAVB

domingo, 25 de junho de 2017

REAPRENDER A ENSINAR


As aulas terminaram! A maioria dos professores está extenuada, apesar de muitos deles ainda terem exames para corrigir e algum trabalho burocrático para fazer. É assim todos os anos, mas não devia!


Agora a classe docente devia estar a preparar-se para sua reciclagem obrigatória! Formação.
Não aquela formação feita para constar e absolutamente necessária para progredir na carreira (quando isso voltar a ser possível), mas a formação que é necessária para não alargarmos o fosso para os alunos, para não cristalizarmos numa forma de ensinar que aprendemos há trinta anos.

Os alunos, as escolas, a sociedade nunca serão aquilo que queremos, aquilo que idealizamos e lutar contra isso é tempo perdido e um desgaste enorme, além de ficarmos desfasados e azedos.

Há anos que penso que a Formação é fundamental para darmos um pulo de qualidade e nos sentirmos realizados na profissão. Uma formação que nos tire o foco das aulas teóricas, que nos ensine a largar o comando da aula, que nos instrua a usar as tecnologias que os alunos usam em prol daquilo que ensinamos, que nos faça trabalhar a partir daquilo que temos e não daquilo que gostaríamos de ter (alunos, escola, colegas encarregados de educação, instalações...).


Todas as profissões foram fazendo lentamente a sua reciclagem. Hoje médicos, bancários, advogados, empresários são profissionais muito diferentes daquilo que eram há duas décadas…
 Só a classe docente se foi deixando ficar, à espera que o ME encaminhasse a Formação. Isso não aconteceu nem vai acontecer. São os professores que a têm de procurar. 
Ou então criá-la para os colegas. Entre os professores há gente que já trilhou o caminho das pedras e foi experimentado novas formas de ensinar. Algumas delas sistematizaram novos métodos e estão disponíveis para passá-los aos colegas.  É preciso requisitá-los, ouvi-los com humildade e adaptar o que têm para dizer à realidade de cada um.
Precisamos de reaprender a ensinar, para voltar a ter gosto naquilo que ensinamos, para vermos outro tipo de fruto do nosso trabalho, para não acabarmos sempre o ano letivo extenuados e um pouco frustrados.

GAVB

sábado, 24 de junho de 2017

MUSEU EUROPEU DO ANO


NOTÁVEL, DESLUMBRANTE, INOVADOR – foram três dos adjetivos encontrados pelo Fórum Europeu dos Museus para eleger o Memorial ACTe, em Guadalupe, França, como o Museu Europeu de 2017.

A decisão foi tomada no final de 2016, mas foi apenas anunciada no mês passado. O Memorial ACTe é dedicado à memória da escravatura. Apesar de ter sido concebido como um memorial, rapidamente este museu se tornou num lugar vivo, onde o visitante pode compreender como era feito o tráfico de escravos entre a Europa, África e a América, ao mesmo tempo que reflete sobre essa época tenebrosa da humanidade, em que a escravatura era parte fundamental da economia dos principais países mundiais.

Inaugurado há dois anos (Maio de 2015), o Memorial ACTe tem uma forte ligação com a comunidade local, um bairro pobre de Carénage, porque houve a preocupação de recrutar e dar formação à população local, para que esta sentisse o museu com seu.

Quem visita este Memorial não pode deixar de se interrogar sobre como foi possível o ser humano viver tanto tempo numa indignidade tão aviltante como a da escravatura, que, apesar de abolida em grande parte dos países, ainda subsiste de forma encoberta, mesmo em países desenvolvidos. 

Quando observamos fenómenos socais como o racismo, a exclusão social, as desigualdades sociais gritantes e injustificadas, a violação dos direitos humanos não podemos deixar de nos interrogar se aquilo que vemos em Guadalupe já faz mesmo parte da História.
Ainda que a alma escureça durante o tempo que passamos no Memorial ACTe, é necessário conhecer, pressentir essa dor de séculos para que ela permaneça apenas nos livros de História.

GAVB  

sexta-feira, 23 de junho de 2017

FINALMENTE O IAVE PEDE INVESTIGAÇÃO À FUGA DE INFORMAÇÃO NO EXAME DE PORTUGUÊS



Quatro dias e muita pressão mediática depois, o IAVE lá enviou uma participação de “uma eventual fuga de informação” no exame de Português do 12.ºano. Ontem, escrevi que provavelmente a batota ia compensar e, apesar das notícias de hoje, mantenho o ceticismo.
Só hoje, dia 23 de junho, o IAVE publicou uma nota sobre o exame de Português, porque o ruído nos jornais e redes socais é imenso. Se a sua intenção sempre foi esta, por que esperou quatro dias para fazer participação ao Ministério Público?



O MP abriu inquérito, mas creio que isso é só o início de um processo burocrático, destinado a calar a desconfiança generalizada que se instalou entre pais, alunos e professores face à idoneidade de algum(uns) membro(s) responsável(eis) pela realização das provas, pois o processo nunca estará pronto a tempo de produzir efeitos na candidatura dos alunos ao ensino superior, caso seja apurada qualquer tipo de fraude.

O IAVE e o ME pediram a intervenção do MP apenas para lavarem as mãos, pois não dão explicações convincentes sobre o caso (a que eles próprios dão relevância, pois de contrário não faziam participação ao MP), nem acho que ponderem seriamente a anulação da provação, já que não há nenhuma indicação do Ministério da Educação nesse sentido. Se os alunos tiverem de se submeter a nova prova, devia o ME alertar os discentes para essa possibilidade, a fim de os preparar psicologicamente para o facto.

Apesar de algumas informações referirem que o ME mandou que os corretores suspendessem a correção da prova entretanto realizada, não creio que se esteja perto da anulação da prova.

Aquilo que se pede a um político é que esteja preparado para tomar decisões difíceis e arriscadas, se necessárias. Neste caso, como noutros em anos anteriores, acho que o máximo a que chegaremos é admitir que “houve uma EVENTUAL fuga de informação, mas não se consegue apurar os autores da mesma”.
Hoje é noite de São João e os balões vão ficar em terra por causa dos incêndios. Há uns dias escrevi que o aeroporto Francisco Sá Carneiro parava três horas por causa dos balões. Afinal, parece que os aviões vão levantar voo, por causa dos incêndios e das mortes de Pedrógão. Sempre houve incêndios nesta altura do ano, mas foi preciso morrer dezenas de pessoas para termos todo o tipo de cuidado.

 O ME também precisa de evidências brutais para tomar decisões difíceis?
GAVB

quinta-feira, 22 de junho de 2017

EXAME DE PORTUGUÊS: SE HOUVE CRIME, VAI COMPENSAR


Já passaram mais de 72 horas sobre o exame de Português de 12.º ano e a PGR diz que ainda não recebeu nenhuma denúncia de possível fraude. Se ainda não surgiu, provavelmente não irá surgir. Nas últimas 48 horas, vários órgãos de informação fizeram eco de uma denúncia formal de Miguel Bagorro, professor, ao Ministério da Educação e ao Júri Nacional de Exames, tendo por base uma gravação áudio, com data de sábado (dois dias antes do exame), onde uma aluna aludia às matérias que seriam testadas no exame nacional de Português do 12.º ano. Para sorte dela e de todos aqueles que tiveram acesso à informação e nela acreditaram, parece que bateu a bota com a perdigota.
Se a rapariga teve acesso indevidamente a informação privilegiada será difícil de provar, pois não estou a ver ninguém do IAVE a assumir tal indignidade. No entanto, à mulher de César (ME e Júri Nacional de Exames) não basta ser séria, também tem de o parecer, e neste caso nada do que veio a público parece sério.

Fonte do IAVE disse ontem ao Diário de Notícias que as denúncias chegadas iam ser enviadas à PGR, mas hoje, à hora do fecho do expediente, nada tinha chegado. Amanhã é sexta-feira… se houvesse mesmo intenção de investigar seriamente, para admitir tomar uma posição radical (anular a prova), o caso já devia estar no MP – não está!
A maioria dos alunos não acredita na anulação da prova, embora desconfie da possível batota de alguns. Ora, esta é uma imagem de enorme fragilidade que os Ministérios da Educação e da Justiça dão aos nossos jovens. Querem que eles acreditem num estado de direito, se o seu primeiro contacto com o mundo dos adultos é feito através de uma suspeita de fraude que os pode ter prejudicado?

Muitos argumentam que as datas dos outros exames e os prazos de candidatura ao ensino superior não deixam outra alternativa que não seja abafar o caso e deixar que o interesse mediático se vire para outro lado.
Mesmo que o ME quisesse anular a prova, como a substituiria? Outra prova tinha de ser executada nos próximos sete dias, para que os professores tivessem tempo de a corrigir! Fazer valer a 2.ª chamada como primeira, está fora de hipótese, pois ela acontece um dia antes do início das candidaturas à universidade…
O sistema parece feito para que as fraudes, por mais evidentes que possam parecer ou ser, não passem de boatos!
É pena que os jovens aprendam tão cedo os truques manhosos de quem tinha obrigação de ser e parecer honesto.

GAVB

quarta-feira, 21 de junho de 2017

VENCER O CALOR SEM AR CONDICIONADO

Há uns dias ouvia uma senhora a discursar entusiasmadíssima contra o ar condicionado que não resisti a atirar-lhe, em forma de provocação: «Isso é tudo muito bonito, mas quando vives numa cidade, onde em dias consecutivos, a temperatura diurna oscila entre os 30 e 40 graus celsius e a notura raramente baixa dos 20, é difícil não pedir um ar condicionado!» A mulher não se ficou e desvendou alguns dos seus truques para vencer a tentação em noites de calor.

Tudo começa no jantar, uma sopa fria basta. Nada de comidas calóricas, pesadas e quentes. Se não gostas de sopa fria, come um gaspacho.” Como fiquei com um semblante pouco convencido, ela continuou “Depois, nada de levar computador para o quarto. Produz muito calor e aquece o ambiente com facilidade.” Concordei de imediato, até porque já o substitui pelo smartphone para grande parte das tarefas, mas não lhe disse nada, não fosse ela fazer uma adenda para telemóveis.

O quarto deve ser mantido em completa escuridão todo o dia, ou seja, janelas fechadas enquanto houver luz solar.” Ok, isso já fazia, mas não me parece suficiente…
“… Se não for suficiente, levar um pedaço de gelo e coloca-o frente a uma ventoinha! Confere à atmosfera um ar bem mais fresco.” Eu pensei que não valia o recurso a objetos elétricos, mas não se deve contrariar uma senhora e por isso deixei-a continuar.

Antes de deitar, convém também tomar um banho de água morna. Morna! Nota bem! Nada de água gelada, porque o corpo reage, tentando compensar o choque térmico!”. Eu anotei, embora não tivesse à mão nenhum bloco de notas. E ela lá foi prosseguindo…


Há ainda mais alguns truques a respeitar: dormir com os pés de fora e completamente nu!” Neste ponto grande parte da audiência concordou totalmente, mas logo a senhora desfez os sorrisos marotos: “Mas está totalmente fora de questão dormir em conchinha! Bebam um copo de água que ajuda a libertar o calor do corpo”. O calor e as ideias… Acho que a mulher escolheu mal a sequência dos seus conselhos. Não me parece que o problema do calor excessivo se resolva sem o recurso ao ar condicionado. São demasiadas restrições, demasiados apetrechos, muito truque para decorar e eu não tenho vontade em me tornar ilusionista.

GAVB