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quarta-feira, 16 de agosto de 2017

ALEGRIA PERVERSA


Os alemães usam o termo Schadenfreude para designar a satisfação que as pessoas sentem quando o infortúnio atinge os outros. É provável que a maioria de nós já tenha sentido esta espécie de alegria perversa, mas admiti-lo é algo bem mais raro, embora haja situações mais toleráveis que outras.
Por exemplo, é perfeitamente aceitável que um adepto do Sporting fique a rir-se do falhanço europeu do rival Benfica, mas o mesmo já não acontece quando uma mulher manifesta regozijo com o falhanço da relação amorosa da colega de trabalho.

Paul Krugman, prémio Nobel da Economia em 2008, colocou duas perguntas a um conjunto alargado de pessoas: 1- aceitaria baixar o seu salário? 2- Aceitaria baixar o seu salário, na condição do seu colega ganhar menos que você? Obviamente, todos responderam «não» à primeira questão, mas surpreendentemente, a maioria respondeu «sim» à segunda.

Dan Ariely, psicólogo, acha que esta satisfação pelo insucesso alheio se deve a “razões evolutivas”, ou seja, o nosso cérebro está constantemente a estabelecer comparações para se adaptar às circunstâncias. Assim, os acontecimentos não seriam bons nem maus, mas dependeriam do contexto. Segundo Ariely são a maneira como os acontecimentos afetam os outros que dita grande parte da avaliação feita.
De facto é cada vez mais verificável que há pessoas que não ficam particularmente felizes quando o seu sucesso não é exclusivo. É o cérebro que ainda está a reconfigurar…

GAVB   

terça-feira, 15 de agosto de 2017

AS PRIMEIRAS FÉRIAS COM OS PAIS SEPARADOS


Ricardo e Catarina estavam de regresso às aulas. As férias grandes já faziam parte do passado, mas continuavam bem presentes no espírito de cada um, pois tinham sido as primeiras após a separação dos pais, que ocorrera logo no início do ano. As marcas daqueles quinze dias com o pai, no Algarve, ainda estavam bem visíveis no íntimo do sensível filho de Teresa e Filipe.
         Ricardo ainda tem presente a alegria ávida e ansiosa do pai, quando os recebeu em Lisboa, antes de rumar a sul. Durante seis meses só tinha estado com o pai aos fins-de-semana e ainda assim não tinham sido todos. Ricardo e a irmã não podiam deixar de reparar como o pai tudo fazia para lhes agradar, desde a escolha do local de férias, aos restaurantes, aos pequenos divertimentos. Sentiam-se até um pouco estranhos, mas as suas vidas tinham ficado estranhas desde a separação dos pais.
        
Nunca lhes tinha ocorrido que podiam “perder” os pais, que podiam deixar de ser uma família. Os pais discutiam como todos os pais dos amigos que ainda tinham pais casados, mas a sua preocupação estava na obtenção de uma mesada maior, de um telemóvel mais kittado, na negociação das saídas noturnas durante os fins-de- semana. Nesse entretanto, passaram-se meses, a situação entre os pais tornara-se insustentável e eles só se deram conta quando o divórcio já era irreversível.
        


Queriam agora lutar pela sua família, mas sentiam-se imponentes, cercados pelas circunstâncias e até pela educação que receberam. Os pais sempre lhes tinham ensinado a lutar lealmente pelos seus sonhos e ideais, mas também lhes mostraram como era importante respeitaras ideias e as decisões dos outros. Por outro lado, percebiam que pai começava a refazer a sua vida sentimental ao lado de outra mulher, Rita, e com ela levava o estilo de vida que sempre desejara fazer com a mãe, mas que esta sempre adiara, tão centrada que estava no trabalho, na carreira e no “futuro”. Agora o futuro já não lhes pertencia, agora o futuro era apenas um conta bancária ao dispor de três pessoas que preferiam ter outro presente. 



Pela primeira vez na vida Ricardo experimentava a perda e a culpa. Percebia agora a verdadeira grandeza do que tiveram e já não tinham. Como tinham sido gloriosas aquelas férias a quatro durante mais de dez anos; como era saborosa a presença do pai e da mãe naqueles demorados despertares em tempos de aulas, como era fantástico aquela mania que o pai tinha de jantarem sempre juntos, apesar dos atrasos da mãe por causa do trabalho no consultório. No entanto, Ricardo sentia também a culpa da sua desatenção aos problemas dos pais. E como ele e a irmã podiam ter sido decisivos e não foram. Demasiado centrados nos seus interesses e desatentos às necessidades dos outros, não se tinham dado conta como os pais caminharam para um beco sem saída.
Agora era tarde ou, no mínimo, muito mais difícil…

GAVB

domingo, 13 de agosto de 2017

CAMPEÕES EUROPEUS DA PIROMANIA


Há um ano, Portugal rejubilava com o primeiro Campeonato Europeu de futebol ganho por uma seleção portuguesa. Um título há muito desejado e que encheu de orgulho toda a nação. Infelizmente há outras áreas em que somos campeões europeus (e, quem sabe, campeões do mundo...) - a dos incêndios florestais é a mais evidente.
Ontem, um amigo brasileiro procurava, estupefacto, um comentário meu acerca da seguinte notícia: https://www.sapo.pt/noticias/economia/ja-arderam-122-mil-hectares-desde-janeiro-30-_5979f880d112255733dd2648.

 Não sabia que lhe responder, mas senti uma grande vergonha. «Um terço!!!»  Como é possível!?, tendo em conta a pequenez do nosso território no contexto europeu, as muitas autoestradas que temos no território nacional, os propalados brandos costumes portugueses.
Acho que todos nós sabemos que mais de 80% dos incêndios florestais, em Portugal, tem origem criminosa e todos temos a sensação que passam impunes. 

Sim, a prevenção é mal feita; sim, há enorme descuido e desleixo na limpeza das matas públicas e privadas; sim, a proteção civil é ineficaz; sim, a secretaria da administração interna parece uma barata tonta na coordenação; sim, faltam meios aos bombeiros… tudo isto e mais alguma coisa são causas verdadeiras dos muitos incêndios que existem em Portugal e da enorme área ardida no território nacional, desde que haja uns dias de calor e vento, mas não a causa principal. 

A causa principal é que existe cada vez gente absolutamente doente, que não ama o seu país e tem verdadeiro prazer em vê-lo arder. Essa gente é portuguesa, vive no meio de nós e até é capaz de cantar o hino e chorar com os golos do Ronaldo, mas quando chega o Verão não tem pejo nenhum em destruir mais de 120 000 campos de futebol de floresta; não lhe dói a aflição dos vizinhos que perdem o magro pecúlio angariado durante uma vida, que perdem meios de subsistência, casa e outros haveres; não lhes pesa as mortes nem o sofrimento.
Como diria o meu amigo brasileiro, infelizmente, Portugal tem muitos portugueses que não gostam do seu país e até são capazes de o pôr arder.

GAVB

sábado, 12 de agosto de 2017

BONS SONS POR CEM SOLDOS

Cem Soldos é uma espécie de aldeia de irredutíveis gauleses, que há mais de uma década insiste em organiza,r com irresistível bom gosto e parcos recursos, um festival de música portuguesa, de excelente qualidade.
Caro amigo Hugo Toscano Cunha, não me esqueci que o “Bons Sons” também privilegia a lusofonia e muito tem feito pela divulgação de músicos e grupos oriundos dos vários países que falam português. Mais do que qualquer outra localidade, Cem Soldos merecem uma vénia de reconhecimento e agradecimento pela organização cuidada de um festival que durante quatro dias (neste ano de 11 a 14 de Agosto) propõe mais de 40 concertos, distribuídos por sete palcos, situados em vários pontos da pequena aldeia de Tomar.
Cem Soldos é uma aldeia singular, profundamente cívica e cultural, Com cerca de seiscentos habitantes põe em pé há 11 anos um festival de música que foge à lógica comercial dos festivais de verão em Portugal, mas não cede quanto à qualidade. Por isso, fazem parte da edição deste ano nomes como Capitão Fausto, Virgem Sutra, Né Ladeiras, Mão Morta, Samuel Úria, Frankie Chaves, Rodrigo Leão Paulo Bragança, entre outros.

O Bons Sons não é mais um festival de verão. Há tempo e espaço para as famílias, para fazer das crianças parceiro fundamental do festival, para recriar ligações intergeracionais. Além da música, há cinema, artes performativas, jogos tradicionais, cinema, passeios de burro...
  Quem participa no "Bons Sons" vive a atmosfera do evento e sente como Cem Soldos se envolve nele. E é essa atmosfera de partilha genuína entre quem chega e quem está, unidos pelo gosto da boa música portuguesa, que faz muita gente peregrinar até Cem Soldos. Faz bem ao ouvido, ao espírito e à alma.

GAVB

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

O SOL DA CAPARICA E DA LUSOFONIA


Desde ontem até domingo, decorre em Almada, a quarta edição do Sol da Caparica, um festival de música que faz da lusofonia a sua força motriz.
Nestes quatro dias, passam, pelos palcos Sol da Caparica, nomes como Mariza, HMB, Carlão, António Zambujo, Trovante, Manel Cruz, Teresa Salgueiro, Bonga, Regula, Matias Damásio.
A organização espera mais de 65 mil pessoas para celebrar a música em português.
Dos inúmeros festivais de Verão, sigo este com especial atenção, pela importância do seu desígnio. A lusofonia é um eixo fundamental da nossa história, da nossa cultura e está inscrita no código genético do nosso mundo de afetos.


Há poucos dias, Matias Damásio afirmava, numa entrevista, que sempre se sentiu em casa, quando atuava em Portugal. A comunhão de Anselmo Ralph com o público português é tão forte e genuína como a de Mariza, Tim ou Jorge Palma, embora a dimensão das carreiras seja diferente.
Estou em crer que a música e esta geração sub-40, sem as feridas nem os ressentimentos nem os complexos do processo da descolonização, podem ser o pretexto para o início de um grande projeto de lusofonia à escala mundial.



Apesar do atual Presidente da República ser a pessoa ideal para unir Portugal aos outros cantos da lusofonia, a sua atuação tem sido pouco mais que frouxa e está ainda muito por fazer. A solução não é a CPLP (que nome tão feio… bem melhor seria, por exemplo, Lusomundo), cada vez mais uma organização económica, descaracterizada e obscura. A solução é unir as pessoas através de eventos como o Sol Da Caparica, que devia ser um festival transmitido pelas televisões e rádios dos diversos países lusófonos, permitindo assim uma maior amplitude mediática, porque também é assim que se unem povos.
Tal como canta Tim em “Voar”, a lusofonia precisa de “acordar, meter os pés no chão…/ levantar, pegar no que tem mais à mão e voltar a rir… voltar a andar”, voltar a voar!

GAVB

terça-feira, 8 de agosto de 2017

O EMPREGO PARA A VIDA FAZ MAL À SAÚDE


A grande ambição de um trabalhador é a estabilidade profissional, que é como quem diz um emprego a perder de vista, bem remunerado, com bons colegas e boas condições de trabalho. Obviamente que há muitas pessoas que conseguem alcançar este elixir laboral, como há pessoas que gozam férias várias vezes durante ano, mas não são a maioria.
Por outro lado, a estabilidade laboral é um pouco como o dinheiro que pensamos ter depositado no banco – não existe, mas nós acreditamos que sim e isso nos basta para vivermos descansados.

Grande parte dos funcionários públicos são-no porque acreditam que o seu emprego é para a vida. Esta é a grande vantagem do emprego público (pelo menos em teoria), mas, na realidade aplica-se só aos mais velhos e há gente que passou já metade da sua carreira como contratado do Estado.


No entanto, a questão sobre a qual quero refletir é outra: esta gente do emprego para a vida é feliz? Pensem nos professores, nos funcionários das finanças,  nos juízes, ouçam-nos a falar dos seus empregos… vão concluir que há ali muita frustração acumulada. A realização profissional não passa por ter um emprego para a vida, mas nós passamos grande parte da vida no emprego, logo é pouco provável sentirmo-nos realizado no meio de tanta frustração profissional.

Cada vez mais tenho a convicção que o emprego para a vida nos “amolece”, fazendo-nos esquecer que o trabalho também nos deve desafiar. Além disso, aceitamos de cabeça baixa que nos imponham regras absurdas, que a qualidade das relações laborais se degrade, que o salário só sofra a atualização da inflação, apenas para defender esse bem maior afinal é muitas vezes virtual) que é a estabilidade. Entretanto, a vida perde sabor e começamos a dizer mal de tudo e de todos.

Mudar de trabalho, uma ou duas vezes na vida, só nos faria bem. Seria muito importante sentirmo-nos novamente desafiados, postos à prova. Ganharíamos novos conhecimentos e forçosamente o nosso quadro social mudaria. Com ele uma nova panóplia de oportunidades e outra vida surgiria.
Hoje cada vez mais gente é obrigada a mudar. A mudança acontece mas são os outros a escolher por nós. Quando se trata da nossa vida, do nosso futuro profissional, o melhor é não deixar isso nas mãos dos outros ou do caso. Planear uma mudança profissional pode ser o melhor upgrade que fazemos à nossa vida.

GAVB

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

SUPREMA CANALHICE


Nas últimas horas, o Supremo Tribunal Grego tomou uma das suas piores decisões ao descriminalizar o não pagamento de salário.
A partir de agora, deixa de ser crime uma empresa atrasar-se no pagamento do salário ao trabalhador, a não ser que esse atraso esteja ligado a uma intenção deliberada da empresa despedir o trabalhador. Mas quem quer despedir um trabalhador que trabalhe de borla e a lei não o protege?

Um tribunal não paga salários, mas todos esperam que garanta a justiça, que é como quem diz a lei. A decisão do Supremo Tribunal Grego é uma péssima notícia, mas apenas vem legalizar aquilo que tem sido uma prática grega nas últimas décadas: não pagar. A diferença é que até aqui quem ficava sem o dinheiro eram os povos estrangeiros que emprestavam aos gregos, agora o conceito alastrou à própria sociedade grega.
Aquilo que o Supremo Tribunal helénico fez foi tornar virtual a dívida das empresas aos trabalhadores e legalizar o incumprimento. Não demorará muito tempo até que ninguém pague o que deve, tenha ou não tenha recursos para o fazer.

É verdade que as empresas gregas passam por muitas dificuldades e é-lhes difícil solver os seus compromissos, mas também é verdade que esta inexplicável descriminalização do Supremo Grego fará com que muitas empresas adiem pagamentos ou só paguem parte do que devem. Os trabalhadores terão de trabalhar como escravos, recebendo um salário em cinco ou seis que lhes são devidos, para manter a expectativa de receber aquilo que é seu por direito.
Não deixa de ser irónico que seja durante a vigência de um governo do Syriza que uma medida tão próxima do capitalismo selvático consegue penetrar no Olimpo da democracia.
Quando, hoje, olho para aquilo em que a Grécia se tornou, tenho de reconhecer que aquilo mais parece o berço da Demagogia do que a mãe da Democracia. 
O maior património que um devedor deve defender é a sua credibilidade de bom pagador. Esta decisão do Supremo Grego pareceu apenas uma suprema canalhice.

GAVB