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terça-feira, 17 de outubro de 2017

DE ONDE VEM A DELICADEZA JAPONESA?


Da educação que os japoneses dão aos filhos.
O comportamento das crianças do Japão é muito diferente daquele que observamos no Ocidente. As crianças japonesas não têm o costume de fazer birras, chantagear os pais ou perder facilmente o controlo. E não são nem autómatos nem crianças tristes, a quem os pais aplicam uma educação autoritária e rígida.
Se repararmos com atenção, elas destacam-se pelo grande respeito que manifestam para com os outros, pela capacidade de autocontrolo e pelos gestos suaves e afáveis, seja com os adultos seja com os colegas.
A moderação e respeito pelo próximo encontram as suas raízes no enorme valor dado à família.

Os japoneses acham fundamento o relacionamento intergeracional. Para a criança japonesa, o velho (e não é preciso que seja o avô ou a avó) merece-lhe a maior consideração. Por sua vez, os idosos olham a criança (e não tem necessariamente que ser o seu neto) como uma pessoa em formação e por isso tratam-na com tolerância, adotando sempre uma atitude pedagógica e não julgadora.
Há um clima harmonioso entre gerações, mas este não se baseia numa troca de favores ao bom estilo ocidental “uma mão lava a outra”, mas numa assunção partilhada de responsabilidades. Por exemplo, os avós estão dispostos a participar na educação dos netos, mas acham inconcebível que os pais não tenham tempo para os filhos e se tornem pais ausentes.

Desde de tenra idade a criança japonesa é educada para a sensibilidade. O afeto entre os membros da família é cultivado. Para que isso seja possível é preciso haver tempo de qualidade.
Tempo é um bem inegociável para as famílias japonesas. Criar laços fortes e duradouros com os filhos é fundamental para todos os pais que sabem quão fundamental é estar com os filhos, especialmente nos primeiros anos de vida.
Habituados ao afeto mútuo em família, as crianças nascidas no Japão sabem que grande parte dos seus problemas se podem resolver com uma boa conversa em família, pois todos sentem que a sua opinião é respeitada e tida em conta.

GAVB

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

UMA CONTAGEM SINISTRA QUE NUNCA MAIS ACABA


Três, seis, dez mortos. Depois vinte, vinte e sete, vinte e nove pessoas que perderam a vida. Trinta e um, mais um e outro ainda. Desligo o computador, mas é impossível aquietar a alma, porque ainda não acabou. Percorro o olhar triste dos muitos com que me cruzo e sinto a derrota silenciosa da gente dorida. Ligo a televisão agora – “trinta e seis mortos confirmados, mas ainda há os desaparecidos e os feridos graves”.
E cada vez que o contador sinistro se mexe é mais um soco brutal no corpo exaurido, ensanguentado, destroçado que é Portugal.

Já não suporto mais ouvir desculpas indignas, nem aproveitamento políticos, nem explicações transcendentais. É capaz de ser um pouco de tudo, mas isso agora importa-me pouco. Depois de Pedrógão, essa impossível que foi possível, as mortes desta madrugada não podiam ter acontecido… mas aconteceram.
Não preciso de uma proteção civil que me mande desenrascar, de um governo que mande os bombeiros para casa com temperaturas constantemente acima dos 20 graus, só porque o calendário diz que estamos em Outubro. Então, se estiver a chover em Agosto, não abro o guarda-chuva? E se o calor invadir os dias de Dezembro não dou um belo passeio pela praia?  

Importam-me pouco as condolências, os funerais de estado, as belas exéquias, as preocupações de quem tinha apenas de garantir que não tínhamos de nos preocupar. 

Dizem-me agora que não voltará a acontecer. Realmente não: não há mais pinhal de Leiria para arder, não há mais como recuperar as vidas que se perderam, não há mais confiança num Estado que não sabe proteger a vida dos seus cidadãos.
GAVB


domingo, 15 de outubro de 2017

O DIREITO A TER PAI DEVE PRESCREVER?


Para mim, sempre foi claro que o direito à verdade, ao conhecimento total de quem são os nossos pais é absoluto, inegociável e nunca deve prescrever. No entanto, a lei portuguesa diz que o direito de uma pessoa investigar quem são os seus progenitores termina dez anos após essa pessoa atingir a maioridade. (artigo 1817º do Código Civil).


É certo que o referido artigo prevê já a exceção da ação de investigação de paternidade ser interposta três anos após o suposto filho ficar a saber de factos relevantes que fundamentem a investigação. E há também acórdãos de tribunais que põem em causa a constitucionalidade do famigerado artigo 1817º do CC.
Apesar destes «mas» a lei continua a apontar para a prescrição da investigação de paternidade aos 28 anos e mesmo a dita exceção é fácil de contrariar pelo pai relapso. Facilmente ele consegue afirmar que informou o filho mal ele atingiu a maioridade ou que o caso era vox populi ou do conhecimento familiar.

O argumento da prescrição baseia-se na paz familiar e na segurança jurídica que é preciso garantir à família do pai que... nunca quis assumir a paternidade do seu filho. Na minha opinião é um argumento de segunda, que perde claramente para o direito à verdade e à identidade que que a Lei deve assegurar, sem restrições temporais, a qualquer pessoa.
O pai é rico e o pretenso filho é apenas um oportunista que quer caçar parte da fortuna do pai? A Lei não pode nem deve julgar intenções, pois nesse caso devia também julgar o progenitor que possivelmente se aproveitou da fragilidade afetiva, social e económica da mãe para a engravidar. 
Toda a gente tem direito a saber quem são os seus pais e isso deve demorar o menor tempo possível. 
Não é possível que um pai fuja durante anos a um simples teste de ADN e que o tribunal protele e seja complacente com o prevaricador. Quem indemniza emocional, social e financeiramente aquele filho(a) sem pai? Se o pai acha que está a ser vítima de uma chantagem, faz o teste de ADN, prova que não é o pai e a vida segue. O contrário é que é inaceitável.

A verdade não prescreve, o direito a ver reconhecido o pai também não pode prescrever. 
gavb

sábado, 14 de outubro de 2017

VERDADE E CONSEQUÊNCIA


Mais de 100 dias depois, a verdade técnica sobre os trágicos acontecimentos de Pedrógão lá apareceu, num relatório extenso e denso, que descreve circunstanciadamente o que aconteceu, as estruturas que falharam, mas foge dos nomes como Sócrates das transferências bancárias.
Ao contrário do Primeiro-Ministro, Marcelo Rebelo de Sousa voltou a Pedrógão para dar a cara pelo Estado Português, junto daquela gente a quem coube a má sorte de levar com uma estrutura desorganizada da Proteção Civil. O Presidente da República esperou pacientemente o Relatório, mas até ele ficou desconsolado com os resultados e com a cobardia do governo em assumir culpas. “Já Perdemos Todos Tempo De Mais”.

Marcelo personifica perfeitamente o desencanto dos portugueses com a falta de coragem política dos governantes em assumir as culpas nas horas difíceis. Se têm legitimidade para colher as rosas, nas horas dos bons resultados e dos circunstanciais sucessos, como podem eximir-se à responsabilidade dos comandantes, na hora de tão retumbante falhanço?
Depois desta Verdade cinzenta como o fumo denso que acolitou a morte naquele dia fatídico de junho passado, tem de surgir a Consequência. Não porque somos um povo vingativo, não porque isso nos trará qualquer vida de volta, mas porque um Estado de Direito e de Honra assume os seus falhanços. Em política isso chama-se demissão, senhora ministra Constança Urbano de Sousa.

GAVB

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

SENHORA, SEJA BEM APARECIDA

Hoje é feriado no Brasil. É dia de Nossa Senhora Aparecida, rainha e padroeira do Brasil. Oficialmente desde 1980, a santa preferida dos brasileiros é um fenómeno de fé que dura há 300 anos e orienta a vida espiritual, afetiva e a social de milhões e milhões de brasileiros.
A história remonta ao início do século XVIII e dá conta da surpreendente pesca de uma imagem de Nossa Senhora, por uns pescadores ávidos de boa pescaria, que rapidamente deu origem a uma pescaria soberba e abundante.

Ao longo dos séculos, a padroeira dos rios e dos mares, do ouro e do mel, foi ganhando devotos e dando corpo à fé dos brasileiros, que são, como bem sabemos, um povo místico.
Devido à dimensão humana do Brasil e à devoção que o seu povo sempre teve por Nossa Senhora Aparecida, o seu santuário tornou-se num dos santuários marianos mais visitados do mundo a par de Lourdes, Fátima ou Guadalupe; em certo sentido, até os ultrapassa, pois é um fenómeno religioso mais antigo e profundamente enraizado na alma brasileira.

O que faz um cético ou um agnóstico quando observa toda esta devoção? Tem a tentação de racionalizar, de criticar, de contrapor, de expor as suas contradições, mas devia tentar outra abordagem.
Pensar como é importante a fé na vida de milhões de pessoas e como ela se tornou na força motriz das suas vidas. Tentar perceber como, apesar de todas as críticas e evidências racionais, uma devoção, uma crença, uma fé é tão necessária ao ser humano.

GAVB

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

PRESUNÇÃO DE CULPA


Mais de mil dias depois de ter sido detido no aeroporto de Lisboa, debaixo dos holofotes das câmaras de televisão, José Sócrates é formalmente acusado de corrupção. Quase três anos passaram e desde então para cá o caso Sócrates foi ganhando volume, a acusação foi-se transformando (cada vez piorando mais a situação do ex-primeiro-ministro), ziguezagueando, encontrando novos suspeitos e novas conexões, mas sempre com um resultado final pré-estabelecido. Não devia ser assim, mas foi.


Finalmente o país e Sócrates conhecem a acusação e por incrível que pareça ninguém está admirado com os graves crimes de que os arguidos (outrora gente importante e respeitável do país) são acusados, porque toda a gente já os conhecia. Essa publicitação off the record, pelo Ministério Público, foi a maneira que o MP encontrou para ganhar coragem para acusar Sócrates, Salgado, Zeinal Bava ou Henrique Granadeiro.
A acusação pode ser poderosa, inequívoca e facilmente convertível em punição, mas a Justiça não se livra da justa acusação de também ela ter usado métodos sicilianos. 
Independentemente da raiva e do ódio que alguns agentes da Justiça portuguesa sentem em relação aos ex-poderosos do país e da crença que têm na acusação formulada, devíamos ter chegado a este momento mais cedo e devíamos conseguir outorgar aos arguidos a presunção de inocência, mas isso já é impossível.

Eles já estão condenados. Impossível obter outra sentença. O julgamento será apenas um mero pro forma, pois toda população já formou o seu juízo de valor acerca das acusações amplamente antecipados nos jornais.
É verdade que o mais importante é que se faça Justiça, mas nenhuma Justiça se pode afirmar através do princípio de Maquiavel de que os fins justificam os meios. 
Isso era para os políticos, mas a partir deste momento vale também para alguns juízes. 

A provável culpabilidade de Sócrates, Salgado ou Bava talvez cobre, por agora, a mancha, mas no futuro, este sujar de mãos há de ter consequências e nenhuma delas será boa para a Justiça.

GAVB

terça-feira, 10 de outubro de 2017

SANTANA LOPES TEM UMA ATRAÇÃO IRRESISTÍVEL POR DERROTAS CERTAS


Apesar de já ter sido primeiro-ministro (infelizmente para nós e para ele também), presidente da Câmara da Figueira da Foz e de Lisboa, Santana Lopes acha que ainda falta no seu curriculum conquistar, através do voto (e não por uma qualquer cooptação), a presidência do PSD (ou PPD/PSD, como ele gostava de dizer). Falta e há de continuar a faltar, porque Santana continua a perceber mal o seu partido, apesar das lições que este já lhe deu.
Há duas décadas, Santana foi ao Coliseu disputar a sucessão de Cavaco e perdeu clamorosamente para Fernando Nogueira e Durão Barroso, mas achou o máximo ter ganho reality show da política televisiva. Alguns anos mais tarde, resolveu patrocinar a descida de Jesus Cristo à Terra, ajudando à eleição de Marcelo Rebelo de Sousa em Santa Maria da Feira.

Santana Lopes quer ser presidente do PSD; tem esse sonho, mas não prepara a sua candidatura como deve ser. Pensa até conquistá-la como o Che Guevara queria conquistar a América Latina: romanticamente. Claro que não resultou, claro que saiu cilindrado. Desta vez vai acontecer o mesmo.
É verdade que a única altura em que Santana preparou meticulosamente a sua subida ao poder (ao colocar-se como n.º 2 de Durão Barroso e esperar pacientemente que ele cedesse aos apelos da fama e do dinheiro vindos de Bruxelas), o país sofreu imenso, mas Santana conseguiu os seus intentos.

Santana Lopes ainda não percebeu que o seu tempo passou? Que agora apenas lhe resta o sossegado posto de senador do Partido e o honroso cargo de Provedor da Santa Casa da Misericórdia para que continue a ter palco político com alguma dignidade? Santana é o contrário de Rui Rio e o povo português quer alguém ao estilo de Rui Rio, como se vê na popularidade que António Costa granjeou ao longo destes meses de governação.
Os que dizem apoiar Santana nem gostam assim tanto dele e só o apoiam porque detestam ver Rui Rio tomar o PSD sem oposição, sem uma lutinha de fim-de-semana e também porque sabem que Santana vai perder. Caso soubessem que ele tinha reais possibilidades de vitória nem deixava supor o seu apoio.
Ao contrário do que é a intenção de Santana, a sua candidatura vai a votos para valorizar a vitória de Rio. Também ele vai contribuir com algumas flores para o andor que transporta Rio ao confronto com Costa.
Santana Lopes não tinha necessidade de se autoflagelar assim, mas deve ser por isso que a televisão gosta tanto dele.

GAVB